
Minha Luta
(Mein Kampf)
Adolf Hitler
APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia
Minha Luta
(Mein Kampf) foi a melhor obra já escrita contra o nazismo. Já se escreveram
livros, artigos, crônicas; fizeram-se filmes, peças de teatro. Por mais que
demonstrassem o totalitarismo, a crueldade e a desfaçatez daquele regime, nada
conseguiu superar o original.
A comunidade
judaica, pelo menos alguns de seus setores, batalham por proibir a divulgação do
livro. Não entendo. Quanto mais se conhecer, maior se tornará o repúdio e
aversão.
É certo que os filhos de Israel foram
perseguidos, mas não só. Também o foram os negros, os eslavos, membros das
"Resistências", maçons, todos originários de qualquer raça que não fossem
considerados "arianos". Em suma, perseguiu-se tantos quanto se opuseram aos
planos megalomaníacos do pequeno austríaco que resolveu tornar-se rei do
universo.
Certa vez perguntei a um ex-capitão
do exército mecanizado nazista: "Como foi possível que um dos povos mais cultos
da Europa apoiasse um projeto neurótico e genocida como o dos nazis?"
Respondeu-me, com certa simplicidade: "Perdêramos a I Grande Guerra,
engenheiros, médicos e tantos reviravam latas de lixo para encontrar comida, os
judeus, comerciantes em sua maioria, expunham suas mercadorias sugerindo serem
beneficiados pela situação, era solo fértil para as pregações
anti-semitas".
Quanto ao anti-semitismo, além
da postura racista inquestionável e confessa, havia uma estratégia de
propaganda. Hitler entendia que qualquer movimento precisava de inimigos para
fortalecer-se. Subestimando a capacidade intelectual do povo, afirmava
explicitamente, que as massas tinham dificuldades de entendimento e compreensão.
Daí a necessidade de reduzir os vários adversários a um inimigo único: os
judeus. As críticas da imprensa eram escritas por judeus, que também dominavam a
literatura, as artes e o teatro. França e Inglaterra estavam controladas pelo
capitalismo judaico. Os judeus levavam imigrantes negros para contaminar as
raças européias. Os marxistas e revolucionários russos eram judeus. A maçonaria
era controlada por judeus. Uma generalização absurda que, infelizmente,
funcionou.
Penso que "Minha Luta" deva ser
amplamente conhecido, um texto preconceituoso, presunçoso e que traz embutidos
neuroses e psicoses indiscutíveis, conhecê-lo talvez seja a melhor forma de
impedir que aquelas idéias ressuscitem. Além disso sou contra qualquer forma de
censura. Os romanos incendiaram a Biblioteca de Alexandria, Hitler e Stalin
queimaram livros, Getúlio Vargas também, os militares de nossa recente ditadura
inclusive, e outros tantos, a humanidade só
perdeu.
Por isso tudo divulgo o livro, uma peça
de propaganda bastante eficiente, mas apenas no seu tempo e contexto. Devemos
ler, analisar, discutir e produzir vacinas. Como os vírus, as idéias absurdas
tendem a retornar fortalecidas e resistentes; só conhecendo poderemos
enfrentá-las.
PREFÁCIO
No dia 1.° de abril de 1924,
por força de sentença do Tribunal de Munique, tinha eu entrado no presídio
militar de Landsberg sobre o Lech.
Assim se me
oferecia, pela primeira vez, depois de anos de ininterrupto trabalho, a
possibilidade de dedicar-me a uma obra, por muitos solicitada e por mim mesmo
julgada conveniente ao movimento nacional
socialista.
Decidi-me, pois, a esclarecer, em
dois volumes, a finalidade do nosso movimento e, ao mesmo tempo, esboçar um
quadro do seu desenvolvimento.
Nesse trabalho
aprender-se-á mais do que em uma dissertação puramente
doutrinária.
Apresentava-se-me também a
oportunidade de dar uma descrição de minha vida, no que fosse necessário à
compreensão do primeiro e do segundo volumes e no que pudesse servir para
destruir o retrato lendário da minha pessoa feito pela imprensa
semítica.
Com esse livro eu não me dirijo aos
estranhos mas aos adeptos do movimento que ao mesmo aderiram de coração e que
aspiram esclarecimentos mais substanciais.
Sei
muito bem que se conquistam adeptos menos pela palavra escrita do que pela
palavra falada e que, neste mundo, as grandes causas devem seu desenvolvimento
não aos grandes escritores mas aos grandes
oradores.
Isso não obstante, os princípios de
uma doutrinação devem ser estabelecidos para sempre por necessidade de sua
defesa regular e contínua.
Que estes dois
volumes valham como blocos com que contribuo à construção da obra coletiva.
O
AUTOR
Landsberg sobre o Lech
Presídio Militar
DEDICATÓRIA
No dia 9 de novembro de
1923, na firme crença da ressurreição do seu povo, às 12 horas e 30 minutos da
tarde, tombaram diante do quartel general assim como no pátio do antigo
Ministério da Guerra de Munique os seguintes
cidadãos:
Alfarth (Felix). Negociante, nascido
a 5 de julho de 1901.
Bauriedl (Andreas).
Chapeleiro, nascido a 4 de maio de
1879.
Casella (Theodor). Bancário, nascido a 8
de agosto de 1900.
Ehrlich (Wilhelm). Bancário,
nascido a 19 de agosto de 1894.
Faust (Martin).
Bancário, nascido a 27 de janeiro de
1901.
Hechenberger (Ant.). Serralheiro, nascido
a 28 de setembro de 1902.
Kõrner (Oskar).
Negociante, nascido a 4 de janeiro de
1875.
Kuhn (Karl). Garção.Cehfe, nascido a 26
de julho de 1897.
Laforce (Karl). Estudante de
engenharia, nascido a 28 de outubro de
1904.
Neubauer (Kurt). Doméstico, nascido a 27
de março de 1899.
Pope (Claus von). Negociante,
nascido a 16 de agôsto de 1904.
Pforden
(Theodor von der). Membro do Supremo Tribunal, nascido a 14 de maio de
1873.
Rickmers (Joh.). Capitão de Cavalaria,
nascido a 7 de maio de 1881.
Scheubner-Richter
(Max Erwin von). Engenheiro, nascido a 9 de janeiro de
1884.
Stransky (Lorenz Ritter von). Engenheiro,
nascido a 14 de março de 1899.
Wolf (Wilhelm).
Negociante, nascido a 19 de outubro de 1898.
As
chamadas autoridades nacionais recusaram aos heróis mortos um túmulo
comum.
Por isso eu lhes dedico, para a
lembrança de todos, o primeiro volume desta obra, a fim de que esses mártires
iluminem para sempre os adeptos do nosso
movimento.
Landsberg sobre o Lech, Presídio
Militar, 16 de outubro de 1924.
Adolf Hitler
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO I - NA CASA PATERNA
Considero
hoje como uma feliz determinação da sorte que Braunau no Inn tenha sido
destinada para lugar do meu nascimento. Essa cidadezinha está situada nos
limites dos dois países alemães cuja volta à unidade antiga é vista, pelo menos
por nós jovens, como uma questão de vida e de
morte.
A Áustria alemã deve voltar a fazer
parte da grande Pátria germânica, aliás sem se atender a motivos de ordem
econômica. Mesmo que essa união fosse, sob o ponto de vista econômico, inócua ou
até prejudicial, ela deveria realizar-se. Povos em cujas veias corre o mesmo
sangue devem pertencer ao mesmo Estado. Ao povo alemão não assistem razões
morais para uma política ativa de colonização, enquanto não conseguir reunir os
seus próprios filhos em uma pátria única. Somente quando as fronteiras do Estado
tiverem abarcado todos os alemães sem que se lhes possa oferecer a segurança da
alimentação, só então surgirá, da necessidade do próprio povo, o direito,
justificado pela moral, da conquista de terra estrangeira. O arado, nesse
momento será a espada, e, regado com as lágrimas da guerra, o pão de cada dia
será assegurado à posteridade.
Por isso, essa
cidadezinha da fronteira aparece aos meus olhos como o símbolo de uma grande
missão. Sob certo aspecto, ela se apresenta como uma exortação nos tempos que
correm. Há mais de cem anos, esse modesto ninho, cenário de uma tragédia cuja
significação todo o povo alemão compreende, conquistou, pelo menos, na história
alemã, o direito à imortalidade. No tempo da maior humilhação infligida à nossa
Pátria, tombou ali, por amor à sua idolatrada Alemanha, Johannes Palm, de
Nuremberg, livreiro burguês, obstinado nacionalista e inimigo dos franceses.
Tenazmente recusara-se, como Leo Schlagter, a denunciar os seus cúmplices, ou
melhor os cabeças do movimento. Como este, ele foi denunciado à França, por um
representante do governo. Um chefe de polícia de Ausburgo conquistou para si
essa triste glória e serviu assim de modelo às autoridades alemãs no governo de
Severing.
Nessa cidadezinha do Inn,
imortalizada pelo martírio de grandes alemães, bávara pelo sangue, austríaca
quanto ao governo, moravam meus pais no fim do ano 80 do século passado, meu pai
como funcionário público, fiel cumpridor dos seus deveres, minha mãe toda
absorvida nos afazeres domésticos e, sobretudo, sempre dedicada aos cuidados da
família. Na minha memória, pouco ficou desse tempo, pois, dentro de alguns anos,
meu pai teve que deixar a querida cidadezinha e ir ocupar novo lugar em Passau,
na própria Alemanha.
A sorte de empregado
aduaneiro austríaco se traduzia, naquele tempo, por uma constante peregrinação.
Pouco tempo depois, meu pai foi para Linz, para onde finalmente se dirigiu
também depois de aposentado. Essa aposentadoria não devia, porém, significar um
verdadeiro descanso para o velho funcionário. Filho de um pobre lavrador, já
noutros tempos ele não tolerava a vida inativa em casa. Ainda não contava treze
anos e já o jovem de então fazia os seus preparativos e deixava a casa paterna
no Waldviertel. Apesar dos conselhos em contrário dos "experientes" moradores da
aldeia, o jovem dirigiu-se para Viena, como objetivo de aprender um ofício
manual. Isso aconteceu entre 1850 e 1860. Arrojada resolução essa de afrontar o
desconhecido com três florins para as despesas de viagem. Aos dezessete anos,
tinha ele feito as provas de aprendiz. Não estava, porém, contente. Muito ao
contrário. A longa duração das necessidades de outrora, a miséria e o sofrimento
constantes fortaleceram a resolução de abandonar de novo o ofício, para vir a
ser alguma coisa mais elevada. Naquele tempo, aos olhos do pobre jovem, a
posição de pároco de aldeia parecia a mais elevada a que se podia aspirar;
agora, porém, na esfera mais vasta da grande capital, a sua ambição maior era
entrar para o funcionalismo. Com a tenacidade de quem, na meninice, já era um
velho, por eleito da penúria e das aflições, o jovem de dezessete anos insistiu
na sua resolução e tornou-se funcionário público. Depois dos Vinte e três anos,
creio eu, estava atingido o seu objetivo. Parecia assim estar cumprida a
promessa que o pobre rapaz havia feito, isto é, de não voltar para a aldeia
paterna sem que tivesse melhorado a sua
situação.
Agora estava atingido o seu ideal. Na
aldeia, porém ninguém mais dele se lembrava e a ele mesmo a aldeia se tornara
desconhecida.
Quando, aos cinqüenta e seis
anos, ele se aposentou, não pôde suportar esse descanso na ociosidade. Comprou,
então, uma propriedade na vila de Lambach, na alta Áustria, valorizou-a e voltou
assim, depois de uma vida longa e trabalhosa, à mesma origem dos seus
pais.
Nesse tempo, formavam-se no meu espírito
os primeiros ideais. As correrias ao ar livre, a longa caminhada para a escola,
as relações com rapazes extremamente robustos - o que muitas vezes causava a
minha mãe os maiores cuidados - esses hábitos me poderiam preparar para tudo
menos para uma vida sedentária. Embora, mal pensasse ainda seriamente sobre a
minha futura vocação, de nenhum modo as minhas simpatias se dirigiam para a
linha de vida seguida por meu pai. Eu creio que já nessa. época meu talento
verbal se adestrava nas discussões com os
camaradas.
Eu me tinha tornado um pequeno chefe
de motins, que, na escola, aprendia com facilidade, mas era difícil de ser
dirigido.
Quando, nas minhas horas livres, eu
recebia lições de canto no coro paroquial de Lambach, tinha a melhor
oportunidade de extasiar-me ante as pompas festivas das brilhantíssimas festas
da igreja. Assim como meu pai via na posição de pároco de aldeia o ideal na
vida, a mim também a situação de abade pareceu a aspiração mais elevada. Pelo
menos temporariamente isso se deu.
Desde que
meu pai, por motivos de fácil compreensão, não podia dar o devido apreço ao
talento oratório do seu bulhento filho, para daí tirar conclusões favoráveis ao
futuro do seu pimpolho, é óbvio que ele não concordasse com essas idéias de
mocidade. Apreensivo, ele observava essa disparidade da
natureza.
Na realidade a vocação temporária por
essa profissão desapareceu muito cedo, para dar lugar a esperanças mais
conformes com o meu temperamento.
Revolvendo a
biblioteca paterna, deparei com diversos livros sobre assuntos militares, entre
eles uma edição popular da guerra franco-alemã de 1870-1871. Eram dois volumes
de uma revista ilustrada daquele tempo. Tornaram-se a minha leitura favorita.
Não tardou muito para que a grande luta de heróis se transformasse para mim em
um acontecimento da mais alta significação. Daí em diante, eu me entusiasmava
cada vez mais por tudo que, de qualquer modo, se relacionasse com guerra ou com
a vida militar. Sob outro aspecto, isso também deveria vir a ser de importância
para mim. Pela primeira vez, embora ainda de maneira confusa, surgiu no meu
espírito a pergunta sobre se havia alguma diferença entre estes alemães que
lutavam e os outros e, em caso afirmativo, qual era essa diferença. Por que a
Áustria não combateu com a Alemanha nesta guerra? Por que meu pai e todos os
outros não se bateram também? Não somos iguais a todos os outros alemães? Não
formamos todos um corpo único? Esse problema começou, pela primeira vez, a
agitar o meu espírito infantil. Com uma inveja intima, deveria às minhas
cautelosas perguntas aceitar a resposta de que nem todo alemão possuía a
felicidade de pertencer ao império de Bismarck. Isso era inconcebível para
mim.
Estava decidido que eu deveria
estudar.
Considerando o meu caráter e,
sobretudo o meu temperamento, pensou meu pai poder chegar à conclusão de que o
curso de humanidades oferecia uma contradição com as minhas tendências
intelectuais. Pareceu-lhe que uma escola profissional corresponderia melhor ao
caso. Nessa opinião, ele se fortaleceu ainda mais ante minha manifesta aptidão
para o desenho, matéria cujo estudo, no seu modo de ver, era muito negligenciado
nos ginásios austríacos. Talvez estivesse também exercendo influência decisiva
nisso a sua difícil luta pela vida, na qual, aos seus olhos, o estudo de
humanidades de pouca utilidade seria. Por princípio, era de opinião que, como
ele, seu filho naturalmente seria e deveria ser funcionário público. Sua amarga
juventude fez com que o êxito na vida fosse por ele visto como tanto maior
quanto considerava o mesmo como produto de uma férrea disposição e de sua
própria capacidade de trabalho. Era o orgulho do homem que se fez por si que o
induzia a querer elevar seu filho a uma posição igual ou, se possível, mais alta
que a do seu pai, tanto mais quando por sua própria diligência, estava apto a
facilitar de muito a evolução deste.
O
pensamento de uma repulsa aquilo que, para ele, se tornou o objetivo de uma vida
inteira, parecia-lhe inconcebível. A resolução de meu pai era, pois, simples,
definida, clara e, a seus olhos, compreensível por si mesma. Finalmente para o
seu temperamento tornado imperioso através de uma amarga luta pela existência,
no decorrer da sua vida inteira, parecia coisa absolutamente intolerável, em
tais assuntos, entregar a decisão final a um jovem que lhe parecia inexperiente
e ainda sem responsabilidade.
Seria impossível
que isso se coadunasse com a sua usual concepção do cumprimento do dever, pois
representava uma diminuição reprovável de sua autoridade paterna. Além disso, a
ele cabia a responsabilidade do futuro do seu
filho.
E, não obstante, coisa diferente deveria
acontecer. Pela primeira vez na vida fui, mal chegava aos onze anos, forçado a
fazer oposição.
Por mais firmemente decidido
que meu pai estivesse na execução dos planos e propósitos que se formara, não
era menor a teimosia e a obstinação de seu filho em repelir um pensamento que
pouco ou nada lhe agradava.
Eu não queria ser
funcionário.
Nem conselhos nem "sérias"
admoestações conseguiram demover-me dessa
oposição.
Nunca, jamais, em tempo algum, eu
seria funcionário público.
Todas as tentativas
para despertar em mim o amor por essa profissão, inclusive a descrição da vida
de meu pai, malogravam-se, produziam o efeito
contrário.
Era para mim abominável o pensamento
de, como um escravo, um dia sentar-me em um escritório, de não ser senhor do meu
tempo mas, ao contrário, limitar-me a ter como finalidade na vida encher
formulários! Que pensamento poderia isso despertar em um jovem que era tudo
menos bom no sentido usual da palavra? O estudo extremamente fácil na escola
proporcionava-me tanto tempo disponível que eu era mais visível ao ar livre do
que em casa.
Quando hoje, meus adversários
políticos examinam com carinhosa atenção a minha vida até aos tempos da minha
juventude para, finalmente, poder apontar com satisfação os maus feitos que esse
Hitler já na mocidade havia perpetrado, agradeço aos céus que agora alguma coisa
me restitua à memória daqueles tempos
felizes.
Campos e florestas eram outrora a sala
de esgrima na qual as antíteses de sempre vinham à
luz.
Mesmo a freqüência à escola profissional
que se seguiu a isso em nada me serviu de
estorvo.
Uma outra questão deveria, porém, ser
decidida.
Enquanto a resolução de meu pai de
fazer-me funcionário público encontrou em mim apenas uma oposição de princípios,
o conflito foi facilmente suportável. Eu podia, então dissimular minhas idéias
íntimas, não sendo preciso contraditar constantemente. Para minha tranqüilidade,
bastava-me a firme decisão de não entrar de futuro para a burocracia. Essa
resolução era, porém, inabalável. A situação agravou-se quando ao plano de meu
pai eu opus o meu. Esse fato aconteceu já aos treze anos. Como isso se deu, não
sei bem hoje, mas um dia pareceu-me claro que eu deveria ser artista,
pintor.
Meu talento para o desenho,
inquestionavelmente, continuava a afirmar-se, e foi até uma das razões por que
meu pai me mandou à escola profissional sem contudo nunca lhe ter ocorrido
dirigir a minha educação nesse sentido. Muito ao contrário. Quando eu, pela
primeira vez, depois de renovada oposição ao pensamento favorito de meu pai, fui
interrogado sobre que profissão desejava então escolher e quase de repente
deixei escapar a firme resolução que havia adotado de ser pintor, ele quase
perdeu a palavra.
"Pintor! Artista!" exclamou
ele.
Julgou que eu tinha perdido o juízo ou
talvez que eu não tivesse ouvido ou entendido bem a sua
pergunta.
Quando compreendeu, porém, que não
tinha havido mal-entendido, quando sentiu a seriedade da minha resolução,
lançou-se com a mais inabalável decisão contra a minha
idéia.
Sua resolução era demasiado firme.
Inútil seria argumentar com as minhas aptidões para essa
profissão.
"Pintor, não! Enquanto eu viver,
nunca!" terminou meu pai.
O filho que, entre
outras qualidades do pai, havia herdado a teimosia, retrucou com uma resposta
semelhante mas no sentido contrário.
Cada um
ficou irredutível no seu ponto de vista. Meu pai não abandonava o seu nunca e eu
reforçava cada vez mais o meu não obstante.
As
conseqüências disso não foram muito agradáveis. O velho tornou-se irritado e eu
também, apesar de gostar muito dele. Afastou-se para mim qualquer esperança de
vir a ser educado para a pintura. Fui mais adiante e declarei então
absolutamente não mais estudar. Como eu, naturalmente, com essa declaração teria
todas as desvantagens, pois o velho parecia disposto a fazer triunfar a sua
autoridade sem considerações de qualquer natureza, resolvi calar daí por diante,
convertendo, porém, as minhas ameaças em
realidade.
Acreditava que quando meu pai
observasse a minha falta de aproveitamento na escola profissional, por bem ou
por mal consentiria na minha sonhada
felicidade.
Não sei se meus cálculos dariam
certo. A verdade é que meu insucesso na escola verificou-se. Só estudava o que
me agradava, sobretudo aquilo de que eu poderia precisar mais tarde como pintor.
O que me parecia sem significação para esse objetivo ou o que não me era
agradável, eu punha de lado inteiramente.
Nesse
tempo os meus certificados de estudos, apresentavam sempre notas extremas, de
acordo com as matérias e o apreço em que eu as tinha. Digno de louvor e ótimo,
de um lado; sofrível ou péssimo do
outro.
Incomparavelmente melhores eram os meus
trabalhos em geografia e, sobretudo, em história. Eram essas as duas matérias
favoritas, nas quais eu fazia progressos na
classe.
Quando, depois de muitos anos, examino
o resultado daqueles tempos, vejo dois fatos de muita
significação:
1.° Tornei-me
nacionalista.
2.° Aprendi a entender a história
pelo seu verdadeiro sentido.
A antiga Áustria
era um "estado de muitas nacionalidades".
O
cidadão do império alemão, pelo menos outrora, não podia, em última análise,
compreender a significação desse fato na vida diária do indivíduo, em um Estado
assim organizado como a Áustria.
Depois do
maravilhoso cortejo triunfal dos heróis da guerra franco-prussiana, os alemães
que viviam no estrangeiro eram vistos como cada vez mais estranhos à vida da
nação, que, em parte, não se esforçavam por apreciar ou mesmo não o
podiam.
Confundia-se, na Alemanha, sobretudo em
relação aos austro-alemães, a desmoralizada dinastia austríaca com o povo que,
na essência, se mantinha são.
Não se concebe
como o alemão na Áustria - não fosse ele da melhor têmpera - pudesse possuir
força para exercer a sua influência em um Estado de 52 milhões. Não se concebe
também, sem essa hipótese, que, até na Alemanha, se tenha formado a opinião
errada de que a Áustria era um Estado alemão, disparate de sérias conseqüências
que constitui, porém, um brilhante atestado em favor dos dez milhões de alemães
da fronteira oriental.
Só hoje, que essa triste
fatalidade caiu sobre muitos milhões dos nossos próprios compatriotas, que, sob
o domínio estrangeiro, acham-se afastados da Pátria e dela se lembram com
angustiosa saudade e se esforçam por ter ao menos o direito à sagrada língua
materna, compreende-se, em maiores proporções, o que significa ser obrigado a
lutar pela sua nacionalidade.
Só então um ou
outro poderá, talvez, avaliar a grandeza do sentimento alemão na velha fronteira
oriental, sentimento que se manteve por si mesmo, e que, durar te séculos,
protegera o Reich na fronteira oriental para finalmente se resumir a pequenas
guerras destinadas apenas a conservar as fronteiras da língua. Isso se dava em
um tempo em que o governo alemão se interessava por uma política colonial,
enquanto se mantinha indiferente pela defesa da carne e do sangue de seu povo,
diante de suas portas.
Como sempre acontece em
todas as lutas, havia na campanha pela língua três classes distintas: os
lutadores, os indiferentes e os traidores.
Já
na escola se começava a notar essa separação, pois o mais digno de nota na luta
pela língua é que é justamente na escola, como viveiro das gerações futuras, que
as ondas do movimento se fazem sentir mais
vibrantes.
Em torno da criança empenha-se a
luta, e a ela é dirigido o primeiro
apelo:
"Menino de sangue alemão, não te
esqueças de que és um alemão; menina, pensa que um dia deverás ser mãe
alemã".
Quem conhece a alma da juventude poderá
compreender que são justamente os moços que com mais intensa alegria ouvem tal
grito de guerra. De centenas de maneiras diferentes costumam eles dirigir essa
luta em que empregam os seus próprios meios e armas. Eles evitam canções não
alemães, entusiasmam-se pelos heróis alemães, tanto mais quanto maior é o
esforço para deles afastá-los, sacrificam o estômago para economizarem dinheiro
para a luta dos grandes Em relação ao estudante não-alemão, são incrivelmente
curiosos e ao mesmo tempo intratáveis. Usam as insígnias proibidas da nação e
sentem-se felizes em ser por isso castigados ou mesmo batidos. São, em pequenas
proporções, um quadro fiel dos grandes, freqüentemente com melhores e mais
sinceros sentimentos.
A mim também se ofereceu
outrora a possibilidade de, ainda relativamente muito jovem, tomar parte na luta
pela nacionalidade da antiga Áustria. Quando reunidos na associação escolar,
expressávamos os nossos sentimentos usando lóios e as cores preta, vermelha e
ouro, que, entusiasticamente, saudávamos com urras. Em vez da canção imperial,
cantávamos "Deutschland über alles", apesar das admoestações e dos castigos. A
juventude era assim politicamente ensinada em um tempo em que os membros de uma
soi-disant nacionalidade, na maioria da sua nacionalidade conhecia pouco mais do
que a linguagem. Que eu então não pertencia aos indiferentes, compreende-se por
si mesmo. Dentro de pouco tempo, eu me tinha transformado em um fanático
Nacional-Alemão, designação que, de nenhuma maneira, é idêntica à concepção do
atual partido com esse nome.
Essa evolução fez
em mim progressos muito rápidos, tanto que, aos quinze anos, já tinha chegado a
compreender a diferença entre patriotismo dinástico e nacionalismo racista. O
último conhecia eu, então, muito mais.
Para
quem nunca se deu ao trabalho de estudar as condições internas da monarquia dos
Habsburgos, um tal acontecimento poderá não parecer claro. Somente as lições na
escola sobre a história universal deveriam, na Áustria, lançar o germe desse
desenvolvimento, mas só em pequenas proporções existe uma história austríaca
específica.
O destino desse Estado é tão
intimamente ligado à vida e ao crescimento do povo alemão, que uma separação
entre a história alemã e a austríaca parece impossível. Quando, por fim, a
Alemanha começou a separar-se em dois Estados diferentes, até essa separação
passou para a história alemã.
As insígnias do
Imperador, sinais do esplendor antigo do Império, preservadas em Viena, parecem
atuar mais como um poder de atração do que como penhor de uma eterna
solidariedade.
O primeiro grito dos austro-alemães, nos dias do
desmembramento do Estado dos Habsburgos, no sentido de uma união com a Alemanha,
era apenas efeito de um sentimento adormecido mas de raízes profundas no coração
dos dois povos o anelo pela volta à mãe-pátria nunca
esquecida.
Nunca seria isso, porém,
compreensível, se a aprendizagem histórica dos austro-alemães não fosse a causa
de uma aspiração tão geral. Ai está a fonte que nunca se estanca, a qual,
sobretudo nos momentos de esquecimento, pondo de parte as delícias do presente,
exorta o povo, pela lembrança do passado, a pensar em um novo
futuro.
O ensino da história universal nas
chamadas escolas médias ainda hoje muito deixa a desejar. Poucos professores
compreendem que a finalidade do ensino da história não deve consistir em
aprender de cor datas e acontecimentos ou obrigar o aluno a saber quando esta ou
aquela batalha se realizou, quando nasceu um general ou quando um monarca quase
sempre sem significação, pôs sobre a cabeça a coroa dos seus avós. Não, graças a
Deus não é disso que se deve tratar.
Aprender
história quer dizer procurar e encontrar as forças que conduzem às causas das
ações que vemos como acontecimentos históricos. A arte da leitura como da
instrução consiste nisto: conservar o essencial, esquecer o
dispensável.
Foi talvez decisivo para a minha
vida posterior que me fosse dada a felicidade de ter como professor de história
um dos poucos que a entendiam por esse ponto de vista e assim a ensinavam. O
professor Leopold Pötsch, da escola profissional de Linz, realizara esse
objetivo de maneira ideal. Era ele um homem idoso, bom mas enérgico e, sobretudo
pela sua deslumbrante eloqüência, conseguia não só prender a nossa atenção mas
empolgar-nos de verdade. Ainda hoje, lembro-me com doce emoção do velho
professor que, no calor de sua exposição, fazia-nos esquecer o presente,
encantava-nos com o passado e do nevoeiro dos séculos retirava os áridos
acontecimentos históricos para transformá-los em viva realidade. Nós o ouvíamos
muitas vezes dominados pelo mais intenso entusiasmo, outras vezes comovidos até
às lágrimas. O nosso contentamento era tanto maior quanto este professor
entendia que o presente devia ser esclarecido pelo passado e deste deviam ser
tiradas as conseqüências para dai deduzir o presente. Assim fornecia ele, muito
freqüentemente, explicações para o problema do dia, que outrora nos deixava em
confusão. Nosso fanatismo nacional de jovens era um recurso educacional de que
ele, freqüentemente apelando para o nosso sentimento patriótico, se servia para
completar a nossa preparação mais depressa do que teria sido possível por
quaisquer outros meios. Esse professor fez da história o meu estudo favorito.
Assim, já naqueles tempos, tornei-me um jovem revolucionário, sem que fosse esse
o seu objetivo.
Quem, com um tal professor,
poderia aprender a história alemã, sem ficar inimigo do governo que, de maneira
tão nefasta, exercia a sua influência sobre os destinos da
nação?
Quem poderia, finalmente, ficar fiel ao
imperador de uma dinastia que no passado e no presente sempre traiu os
interesses do povo alemão, em beneficio de mesquinhos interesses
pessoais?
Já não sabíamos, nós jovens, que esse
Estado austríaco nenhum amor por nós possuía e sobretudo não podia
possuir?
O conhecimento histórico da atuação
dos Habsburgos foi reforçado pela experiência diária. No norte e no sul, o
veneno estrangeiro devorava o nosso sentimento racial, e até Viena tornava-se, a
olhos vistos e cada vez mais, estranha ao espírito
alemão.
A Casa da Áustria tchequizava-se, por
toda parte, e foi por efeito do punho da deusa do direito eterno e da inexorável
lei de Talião que o inimigo mortal da Áustria alemã, arquiduque Franz
Ferdinando, foi vítima de uma bala que ele próprio havia ajudado a fundir. Era
ele o patrono da eslavização da Áustria, que se operava de cima para baixo, por
todas as formas possíveis.
Enormes foram os
ônus que se exigiam do povo alemão, inauditos os seus sacrifícios em impostos e
em sangue, e, não obstante, quem quer que não fosse cego, deveria reconhecer que
tudo isso seria inútil.
O que nos era mais
doloroso era o fato de ser esse sistema moralmente protegido pela aliança com a
Alemanha, e que a lenta extirpação do sentimento alemão na velha monarquia até
certo ponto tinha a sanção da própria
Alemanha.
A hipocrisia dos Habsburgos com a
qual se pretendia dar no exterior a aparência de que a Áustria ainda era um
Estado alemão, fazia crescer o ódio contra a Casa Austríaca, até atingir a
indignação e, ao mesmo tempo, o desprezo.
Só no
Reich os já então predestinados" nada viam de tudo
isso.
Como atingidos pela cegueira, caminhavam
eles ao lado de um cadáver e, nos sinais da decomposição, acreditavam descobrir
indícios de nova vida.
Na fatal aliança do
jovem império alemão com o arremedo de Estado austríaco estava o germe da Grande
Guerra, mas também o do desmembramento.
No
decurso deste livro terei que me ocupar mais demoradamente deste problema. Basta
que aqui se constate que, já nos primeiros anos da juventude, eu havia chegado a
uma opinião que nunca mais me abandonou, mas, pelo contrário, cada vez mais se
fortificou. E essa era que a segurança do germanismo pressupunha a destruição da
Áustria e que o sentimento nacional não era idêntico ao patriotismo dinástico e
que, antes de tudo, a Casa dos Habsburgos estava destinada a fazer a
infelicidade do povo alemão.
Dessa convicção eu
já tinha outrora tirado as conseqüências: amor ao meu berço austro-alemão,
profundo ódio contra o governo austríaco.
A
arte de pensar pela história, que me tinha sido ensinada na escola, nunca mais
me abandonou. A história universal tornou-se para mim, cada vez mais, uma fonte
inesgotável de conhecimentos para agir no presente, isto é, para a política. Eu
não quero aprender a história por si, mas, ao contrário, quero que ela me sirva
de ensinamento para a vida.
Assim como logo
cedo tornei-me revolucionário, também tornei-me
artista.
A capital da alta Áustria possuía
outrora um teatro que não era mau. Nêle se representava quase tudo. Aos doze
anos, vi pela primeira vez "Guilherme Te!!" e, alguns meses depois, "Lohengrin",
a primeira ópera que assisti na minha vida. Senti-me imediatamente cativado pela
música. O entusiasmo juvenil pelo mestre de Bayreuth não conhecia
limites.
Cada vez mais me sentia atraído pela
sua obra, e considero hoje uma felicidade especial que a maneira modesta por que
foram as peças representadas na capital da província me tivesse deixado a
possibilidade de um aumento de entusiasmo em representações posteriores mais
perfeitas.
Tudo isso fortificava minha profunda
aversão pela profissão que meu pai me havia escolhido. Essa aversão cresceu
depois de passados os dias da meninice, que para mim foram cheios de pesares.
Cada vez mais eu me convencia que nunca seria feliz como empregado público.
Depois que, na escola profissional, meus dotes de desenhista se tornaram
conhecidos, a minha resolução ainda mais se
afirmou.
Nem pedidos nem ameaças seriam capazes
de modificar essa decisão.
Eu queria ser pintor
e, de modo algum, funcionário público.
E, coisa
singular, com o decorrer dos anos aumentava sempre o meu interesses pela
arquitetura.
Eu considerava isso, outrora, como
um natural complemento da minha inclinação para a pintura e regozijava-me
intimamente com esse desenvolvimento da minha formação
artística.
Que outra coisa, contrário a isso,
viesse acontecer, não previa eu.
O problema da
minha profissão devia, porém, ser decidido mais rapidamente do que eu
supunha.
Aos treze anos perdi repentinamente
meu pai. Ainda muito vigoroso, foi vítima de um ataque apoplético que, sem
provocar-lhe nenhum sofrimento, encerrou a sua peregrinação na terra,
mergulhando-nos na mais profunda dor.
O que
mais almejava, isto é, facilitar a existência de seu filho, para poupar-lhe a
vida de dificuldades que ele próprio experimentara, não havia sido alcançado, na
sua opinião. Apenas sem o saber, ele lançou as bases de um futuro que não
havíamos previsto, nem ele, nem
eu.
Aparentemente, a situação não se modificou
logo.
Minha mãe sentia-se no dever de, conforme
aos desejos de meu pai, continuar minha educação, isto é, fazer-me estudar para
a carreira de funcionário. Eu, porém, estava ainda mais decidido do que antes, a
não ser burocrata, sob condição alguma. A proporção que a escola média, pelas
matérias estudadas ou pela maneira de ensiná-las, afastava-se do meu ideal, eu
me tornava indiferente ao
estudo.
Inesperadamente, uma enfermidade veio
em meu auxílio e, em poucas semanas, decidiu do meu futuro, pondo termo à
constante controvérsia na casa paterna.
Uma
grave afecção pulmonar fez com que o médico aconselhasse a minha mãe, com o
maior empenho, a não permitir absolutamente. que, de futuro, eu me entregasse a
trabalhos de escritório. A freqüência à escola profissional deveria também ser
suspensa pelo menos por um ano.
Aquilo que eu,
durante tanto tempo, almejava, e por que tanto me tinha batido, ia, por força
desse fato, uma vez por todas, transformar-se em
realidade.
Sob a impressão da minha moléstia,
minha mãe consentiu finalmente em tirar-me, tempos depois, da escola
profissional e em deixar-me freqüentar a Academia.
Foram os dias mais felizes
da minha vida, que me pareciam quase que um sonho e na realidade de sonho não
passaram.
Dois anos mais tarde, o falecimento
de minha mãe dava a esses belos projetos um inesperado
desenlace.
A sua morte se deu depois de uma
longa e dolorosa enfermidade que, logo de começo, pouca esperança de cura
oferecia. Não obstante isso, o golpe atingiu-me atrozmente. Eu respeitava meu
pai, mas por minha mãe tinha verdadeiro amor.
A
pobreza e a dura realidade da vida forçaram-me a tomar uma rápida resolução. Os
pequenos recursos econômicos deixados por meu pai foram quase esgotados durante
a grave enfermidade de minha mãe. A pensão que me coube como órfão, não era
suficiente nem para as necessidades mais imperiosas. Estava escrito que eu, de
uma maneira ou de outra, deveria ganhar o pão com o meu
trabalho.
Tendo na mão unia pequena mala de
roupa e, no coração, uma vontade imperturbável, viajei para
Viena.
O que meu pai, cinqüenta anos antes,
havia conseguido, esperava eu também obter da sorte. Eu queria tornar-me
"alguém", mas, em caso algum, empregado público.
CAPÍTULO II - ANOS DE APRENDIZADO E DE SOFRIMENTO EM
VIENA
Quando minha mãe morreu, meu destino
sob certo aspecto já se tinha decidido.
Nos
seus últimos meses de sofrimento eu tinha ido a Viena para fazer exame de
admissão à Academia. Armado de um grosso volume de desenhos, dirigi-me à capital
austríaca convencido de poder facilmente ser aprovado no exame. Na escola
profissional eu já era sem nenhuma dúvida, o primeiro aluno de desenho da minha
classe. Daquele tempo para cá a minha aptidão se tinha desenvolvido
extraordinariamente. de maneira que, contente comigo mesmo, esperava, orgulhoso
e feliz, obter o melhor resultado da prova a que me ia
submeter.
Só uma coisa me afligia: meu talento
para a pintura parecia sobrepujado pelo talento para o desenho, sobretudo no
domínio da arquitetura. Ao mesmo tempo, crescia cada vez mais meu interesses
pela arte das construções. Mais vivo ainda se tornou esse interesse quando, aos
dezesseis anos incompletos, fiz minha primeira visita a Viena, visita que durou
duas semanas. Ali fui para estudar a galeria de pintura do "Hofmuseum", mas
quase só me interessava o próprio edifício do museu. Passava o dia inteiro,
desde a manhã até tarde da noite, percorrendo com a vista todas as raridades
nele contidas, mas, na realidade, as construções é que mais me prendiam a
atenção. Durante horas seguidas, ficava diante da Ópera ou admirando o edifício
de Parlamento. A "Ringstrasse" atuava sobre mim como um conto de mil-e-uma
noites.
Achava-me agora, pela segunda vez, na
grande cidade, e esperava com ardente impaciência, e, ao mesmo tempo, com
orgulhosa confiança, o resultado do meu exame de admissão. Estava tão convencido
do êxito do meu exame que a reprovação que me anunciaram feriu-me como um raio
que caísse de um céu sereno. Era, no entanto, uma pura verdade. Quando me
apresentei ao diretor para pedir-lhe os motivos da minha não aceitação à escola
pública de pintura, assegurou-me ele que, pelos desenhos por mim trazidos,
evidenciava-se a minha inaptidão para a pintura e que a minha vocação era
visivelmente para a arquitetura. No meu caso, acrescentou ele, o problema não
era de escola de pintura mas de escola de
arquitetura.
Não se pode absolutamente
compreender, em face disso, que eu até hoje não tenha freqüentado nenhuma escola
de arquitetura nem mesmo tomado sequer uma
lição.
Abatido, deixei o magnífico edifício da
"Shillerplatz", sentindo-me. pela primeira vez na vida, em luta comigo mesmo. O
que o diretor me havia dito a respeito da minha capacidade agiu sobre mim como
um raio deslumbrante a revelar uma luta íntima, que, de há muito, eu vinha
sofrendo, sem até então poder dar-me conta do porquê e do
como.
Em pouco tempo, convenci-me de que um dia
eu deveria ser arquiteto. O caminho era, porém, dificílimo, pois o que eu, por
teimosia, tinha evitado aprender na escola profissional, ia agora fazer-me
falta. A freqüência da Escola de Arquitetura da Academia dependia da freqüência
da escola técnica de construções e a entrada para essa exigia um exame de
madureza em uma escola média. Tudo isso me faltava completamente. Dentro das
possibilidades humanas, já não me era mais lícito esperar a realização dos meus
sonhos de artista.
Quando, depois da morte de
minha mãe, pela terceira vez, e desta vez para demorar-me muitos anos, fui a
Viena, a tranqüilidade e uma firme resolução tinham voltado a mim, com o tempo
decorrido nesse intervalo.
A antiga teimosia
também tinha voltado e com ela a persistência na realização do meu objetivo. Eu
queria ser arquiteto. Obstáculos existem não para que capitulemos diante deles
mas para os vencermos. E eu estava disposto a arrostar com todas essas
dificuldades, sempre tendo, diante dos olhos, a imagem de meu pai, que, de
simples aprendiz de sapateiro de aldeia, tinha subido até ao funcionalismo
público. O chão sobre que eu pisava era mais firme, as possibilidades na luta,
maiores. O que, outrora, me parecia aspereza da sorte, aprecio hoje como
sabedoria da Providência. Enquanto a necessidade me oprimia e ameaçava
aniquilar-me, crescia a vontade de lutar. E, finalmente, foi vitoriosa a
vontade. Agradeço àqueles tempos o ter-me tornado forte e poder sê-lo ainda. E
ainda mais agradeço o ter-me livrado do tédio da vida fácil e ter-me tirado do
conforto despreocupado do lar, para dar-me o sofrimento como substituto de minha
mãe e lançar-me na luta de um mundo de misérias e de pobreza, que aprendi a
conhecer e pelo qual mais tarde deveria
lutar.
Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para
dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me
apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo
germânico: marxismo e judaísmo.
Viena, a cidade
que para muitos reputada como um complexo de inocentes prazeres, como lugar para
homens que se querem divertir, vale para mim, infelizmente, como uma viva
lembrança dos mais tristes tempos da minha vida. Ainda hoje, essa capital só
desperta em mim pensamentos sombrios. Cinco anos de miséria e de sofrimentos,
eis o que significa a minha estadia nessa cidade de prazeres. Cinco anos em que,
primeiro como ajudante de operário, depois como aprendiz de pintor, vime forçado
a trabalhar pelo pão quotidiano, mesquinho pão que nunca bastava para saciar a
minha fome habitual, A fome era então minha companheira fiel que nunca me
deixava sozinho e que de tudo igualmente participava. Cada livro que eu comprava
aumentava a sua participação na minha vida. Uma visita à Ópera fazia com que ela
me fizesse companhia o dia inteiro. Era uma eterna luta com o meu impiedoso
companheiro. E, não obstante isso, nesse tempo aprendi mais do que nunca. Além
do meu trabalho em construções, das raras visitas à Ópera, - feitas com o
sacrifício do estômago - tinha como único prazer a leitura. Li muito e
profundamente. No tempo livre, depois do trabalho, subia imediatamente ao meu
quarto de estudo. Em poucos anos, lancei os alicerces de conhecimentos de que
ainda hoje me utilizo. Mais importante do que tudo isso: naqueles tempos adquiri
uma noção do mundo que serviu de fundamento granítico para o meu modo de agir de
então. A essa noção precisei acrescentar pouca coisa, mudar
nada.
Ao
contrário.
Estou firmemente convencido de que,
em conjunto, várias idéias criadoras que hoje possuo, já na mocidade apareciam
fundadas em princípios. Faço diferença entre a sabedoria da velhice, que vale
pela sua maior profundidade e prudência, resultantes da experiência de uma longa
vida, e a genialidade da juventude que, em inesgotável proliferação, cria
pensamentos e idéias sem poder logo elaborá-las definitivamente, em conseqüência
do tumulto em que elas se sucedem. A mocidade fornece o material de construção e
os pia-nos de futuro, dos quais a velhice toma os blocos, trabalha-os e levanta
a construção, isso quando a chamada sabedoria dos velhos não sufoca a
genialidade dos moços.
A vida que eu até ali
tinha levado na casa paterna diferenciava-se em pouco ou em nada da vida dos
outros. Sem cuidados, podia esperar pelo dia seguinte, e para mim não havia
questão social. As relações da minha juventude compunham-se de pequenos
burgueses, por conseguinte de um mundo que mantinha muito poucas relações com o
verdadeiro operário. Por mais estranho que isso possa parecer à primeira vista,
o abismo entre essa camada social, cuja situação econômica nada tem de
brilhante, e o trabalhador manual, é freqüentemente mais profundo do que se
pensa. A razão dessa quase inimizade jaz no receio que tem um grupo social que,
apenas há pouco tempo, elevou-se acima do nível do proletariado, de descer à
antiga e pouco prezada posição ou de, pelo menos, ser visto como pertencendo a
essa classe. A isso se acrescente, entre muitos, a desagradável lembrança da
ignorância dessa baixa classe, a constante brutalidade nas suas relações uns com
os outros e compreender-se-á porque a pequena burguesia, em uma posição social
ainda inferior, considera todo contato com essas ínfimas camadas sociais como um
fardo insuportável.
Isso explica porque é mais
freqüente a uma pessoa altamente colocada, do que a um parvenu, nivelar-se, sem
afetação, com os mais humildes. O parvenu é o que, por sua própria força de
vontade, passa, na luta pela vida, de uma posição social a outra mais elevada.
Essa luta, as mais das vezes áspera, mata a compaixão no coração humano e
estanca a simpatia pelos sofrimentos dos que ficam
atrás.
Sob esse aspecto, a sorte foi comigo
compassiva. Enquanto me compelia a voltar para esse mundo de pobreza e de
incertezas, que, no decurso de sua vida, meu pai já havia abandonado, punha, ao
mesmo tempo, diante dos meus olhos, com todos os seus aspectos repugnantes, a
educação estreita dos pequenos burgueses. Só então aprendi a conhecer os homens,
aprendi a fazer a diferença entre ocas aparências, exteriorizações brutais e a
essência íntima das coisas.
Já no fim do século
passado, Viena pertencia ao número das cidades em que era visível o
desequilíbrio social.
Brilhante riqueza e
degradante pobreza revezavam-se em contrastes violentos. No centro da cidade e
nas suas adjacências sentia-se o bater do pulso do Império de cinqüenta e dois
milhões, com todo o seu poder mágico de atração, nesse Estado de várias
nacionalidades. A Corte no seu deslumbrante esplendor, agia como ímã sobre a
riqueza e a inteligência do resto do Estado. A isso deve-se juntar a forte
centralização da política da monarquia dos Habsburgos. Nessa concentração,
estava a única possibilidade de manter-se em firme união essa salada de povos. A
conseqüência disso foi, porém, uma exagerada concentração das autoridades
governamentais na capital, na residência da
Corte
Além disso, Viena era, não só espiritual
e politicamente, mas também economicamente, o centro da antiga monarquia
danubiana. Em frente ao exército de oficiais superiores, funcionários públicos,
artistas e sábios, estendia-se um exército ainda maior, composto de
trabalhadores; em frente da riqueza da aristocracia e do comércio, uma pobreza
atroz. Diante dos palácios da Ringstrasse perambulavam milhares de sem-trabalho
e, por baixo dessa via triunfal da velha Áustria, amontoavam-se os sem-teto, no
lusco-fusco e na imundície dos
canais.
Dificilmente em uma cidade alemã se
poderia tão bem estudar a questão social como em Viena. Mas ninguém se iluda.
esse estudo não pode ser feito de cima para baixo. Quem não se viu nas garras
dessa víbora nunca aprenderá a conhecer os seus dentes venenosos. Sem essa
etapa, tudo redunda em palavreado superficial ou sentimentalismo hipócrita. Um e
outro caso são de conseqüências nocivas: no primeiro, porque não se pode descer
ao âmago da questão, no segundo, porque se passa sobre
ela.
Não sei o que é mais desolador: a
indiferença pela miséria social que se nota diariamente na maioria dos que foram
favorecidos pela sorte ou que subiram pelos seus próprios méritos, ou a
afabilidade soberba, importuna, sem tato, embora sempre compassiva, de certas
senhoras da moda que afetam sentir com o povo. Essa gente peca por falta de
instinto mais do que se pode supor. Por isso, com surpresa sua, o resultado de
sua atividade social é sempre nulo, freqüentemente provoca repulsa, o que é
interpretado como prova da ingratidão do
povo.
Dificilmente entra na cabeça dessa gente
que uma atividade social não consiste nisso e que, sobretudo, não se deve
esperar gratidão, pois, no caso, não se trata de distribuição de favores mas
apenas de restabelecimento de direitos.
Por
isso, escapei de entender a questão social por essa forma. Quando ela me
arrastou aos seus domínios parecia não me convidar para aprender mas sim para
pôr-me à prova. Não foi por seu merecimento que a cobaia, ainda sadia, suportou
a operação.
Na maior parte dos casos não era
muito difícil, naquele tempo, encontrar trabalho, uma vez que eu não era
operário técnico, mas devia conquistar o pão de cada dia, como ajudante de
operário e muitas vezes como trabalhador de.
emergência.
Colocava-me, por isso, no ponto de
vista daqueles que sacodem dos pés a poeira da Europa, com o irremovível
propósito de, rio Novo Mundo, criar uma nova vida, construir uma nova pátria.
Libertados de todas as noções até aqui falhas sobre profissão, ambiente e
tradições, pegam-se a todo ganho que se lhes oferece, agarram-se a todo
trabalho, lutando sempre, com a convicção de que nenhuma atividade envergonha,
pouco importando de que natureza esta possa ser. Assim estava eu também decidido
a lançar-me de corpo e alma no mundo para mim novo e abrir-me um caminho,
lutando.
Cedo me convenci de que trabalho há
sempre, mas perdemo-lo com a mesma facilidade com que o
encontramos.
A incerteza do ganho do pão
quotidiano, dentro de pouco tempo pareceu-me ser o aspecto mais sombrio da nova
vida.
O operário técnico não é lançado tão
freqüentemente na rua, como os que não o são, mas ele também não está
inteiramente ao abrigo dessa sorte. Entre eles, ao lado da perda do pão por
falta de trabalho, podem concorrer o chômage e as suas próprias
greves.
Nesses casos, a incerteza do ganho do
pão diário tem fortes reações sobre toda a
economia.
O camponês que se dirige às grandes
cidades atraído pelo trabalho que imagina fácil ou que o é realmente, mas sempre
trabalho de pouca duração, ou o que é atraído pelo esplendor da grande cidade, o
que sucede na maioria dos casos, esse ainda está habituado a uma certa segurança
do pão. Ele costuma só abandonar os antigos postos, quando tem outro pelo menos
em perspectiva.
A falta de trabalhadores do
campo é grande e, por isso, a probabilidade de falta de trabalho é ali muito
pequena.
É pois, um erro acreditar que o jovem
trabalhador que se dirige à cidade seja inferior ao que fica trabalhando na
aldeia. A experiência mostra que acontece o contrário com todos os elementos de
emigração, quando são sadios e ativos. Entre esses emigrantes devem-se contar
não só os que vão para a América mas também os jovens que se decidem a abandonar
sua aldeia para se dirigirem as grandes capitais desconhecidas. Esses também
estão dispostos a aceitar uma sorte incerta. Na maioria, trazem algum dinheiro,
e, por isso, não se vêem na contingência de ser arrastados ao desespero logo nos
primeiros dias, se, por infelicidade, de começo não encontram trabalho. O pior
é, porém, quando perdem, em pouco tempo, o trabalho que haviam encontrado.
Encontrar outro, sobretudo no inverno, é difícil, se não impossível. Nas
primeiras semanas, a situação é ainda insuportável, pois ele recebe da caixa do
sindicato a proteção dada ao seu trabalho e atravessa como pode os dias de
desemprego. Quando o seu último vintém é gasto, quando a caixa, em conseqüência
da longa duração da falta de trabalho, também suspende o pagamento, vem a grande
miséria. Então, faminto, erra para cima e para baixo, empenha ou vende os
objetos que lhe restam e cada vez mais sensível se lhe torna a falta de roupas.
Desce a uma Convivência que acaba por envenenar-lhe o corpo e a alma. Fica sem
casa e, se isso acontece no inverno como é comum, então a miséria aumenta.
Finalmente, encontra algum trabalho, mas o jogo se repete. Uma segunda vez
atingiu de maneira semelhante à primeira, a terceira vez as coisas se tornaram
ainda mais difíceis, e assim, pouco a pouco, ele aprende a suportar com
indiferença a eterna insegurança. Por fim, a repetição adquire força de
hábito.
E assim o homem, outrora diligente,
abandona inteiramente a sua antiga concepção da vida, para, pouco a pouco,
transformar-se em um instrumento cego daqueles que dele se utilizam apenas na
satisfação dos mais baixos proveitos. Sem nenhuma culpa sua ele ficou tantas
vezes sem trabalho, que, mais uma vez, menos uma vez, pouco lhe importa. Assim
mesmo quando não se trata da luta pelos direitos econômicos do operariado mas de
destruição dos valores políticos, sociais ou culturais, ele será então, quando
não entusiasta de greves, pelo menos indiferente a
elas.
Essa evolução eu tive oportunidade de
acompanhar cuidadosamente em milhares de exemplos. Quanto mais eu observava
esses fatos, tanto mais aumentava a minha aversão pela cidade dos milhões que os
homens, cheios de cobiça, acumulavam para, depois, tão cruelmente,
desperdiçá-los.
Eu também fui fustigado pela
vida na grande metrópole e à minha própria custa submeti-me a essa provação,
experimentando, uma por uma todas essas dolorosas
sensações.
Observei ainda que essa rápida
mudança do trabalho para a ociosidade forçada e vice-versa, essa eterna
oscilação do emprego para o desemprego, com o tempo, haveria de destruir o
sentimento de economia e as razões para um prudente equilíbrio de vida.
Lentamente o corpo parece acostumar-se a viver à farta nos bons tempos e a
passar fome nos maus. A fome destrói todos os projetos dos operários no sentido
de um melhor e mais razoável modus vivendi. Nos bons tempos eles se deixam
embalar por uma constante miragem pelo sonho de uma vida melhor, sonho que
empolga de tal modo a sua existência que eles esquecem as antigas privações,
logo que recebem os seus salários. Dai resulta que o que consegue trabalho,
imediatamente, da maneira mais desrazoável, esquece uma prudente distribuição de
suas despesas, para viver à larga, apenas nos dias imediatos. Isso conduz ao
transtorno da manutenção da casa durante a semana, tornando não mais possível
uma razoável distribuição da receita. O dinheiro da semana, de começo, dá para
cinco dias em vez de sete, mais tarde para três em vez de quatro, finalmente
apenas para um dia e, por fim, logo na primeira noite é inteiramente gasto em
prazeres.
Em casa, as mais das vezes, há mulher
e crianças. Também elas recebem a influência dessa maneira de viver,
principalmente se o chefe de família é bom para os seus. Nesse caso, o ganho da
semana é esbanjado com todos em casa nos três primeiros dias. Come-se e bebe-se
enquanto o dinheiro dura, e, nos últimos dias, todos passam fome. Então a mulher
percorre humildemente a vizinhança e os arredores, pede emprestado alguma coisa,
faz pequenas dividas no vendeiro e procura assim manter-se com os seus nos
últimos dias da semana. Ao meio-dia, sentam-se todos juntos, diante de magros
pratos, muitas vezes até esses faltam, e, fazendo planos, esperam pelo dia do
pagamento. Enquanto passam fome sonham de novo com a felicidade. E assim as
crianças desde a mais tenra idade, acostumam-se a essa miséria, o pior, porém, é
quando, desde o começo, o marido segue o seu caminho e a mulher, por amor aos
filhos, levanta-se contra isso. Então surgem as brigas, as disputas constantes.
E à proporção que o marido se afasta da mulher, aproxima-se do álcool. Todos os
sábados ele se embriaga. Por instinto de conservação, por si e pelos filhos, a
mulher briga para tomar os últimos vinténs do marido quando este se dirige da
fábrica para a espelunca. Por fim, domingo ou segunda-feira, à noite, ele volta
para casa, embriagado e brutal, sempre sem vintém. Então desenrolam-se
freqüentemente cenas lastimáveis.
Assisti tudo
isso em centenas de casos. No começo sentia-me enojado ou irritado para, mais
tarde, compreender toda a tragédia dessa miséria e as suas causas mais
profundas. Infelizes vitimas de péssimas condições
sociais.
Tão tristes, talvez, eram, outrora, as
condições das habitações. A crise de casas para os ajudantes de operários de
Viena era horrível. Ainda hoje sinto calafrios quando penso naqueles horríveis
covis, as estalagens e nas habitações coletivas, naqueles sombrios quadros de
sujeira e de escândalos. Que poderia resultar daí, quando desses covis de
miséria a torrente de escravos abandonados se lançasse sobre a outra parte da
humanidade, livre de cuidados,
despreocupada?
Sim, o resto do mundo é
despreocupado. Despreocupado fica, deixando que as coisas sigam o seu caminho,
sem pensar que, na sua falta de intuição, a revanche terá lugar, mais cedo ou
mais tarde, se em tempo os homens não modificarem essa triste
realidade.
Quanto agradeço hoje à Providência o
ter-me lançado nessa escola! Aí eu não podia mais sabotar o que não me era
agradável. Essa escola educou-me depressa e
solidamente.
A menos que eu não quisesse perder
a esperança nos homens com quem convivia outrora, deveria fazer a diferença
entre a vida que aparentavam e as razões da mesma. Tudo isso deveria, pois, ser
suportado sem desânimo. Então, de toda essa infelicidade e miséria, de toda essa
sujidade e degradação, deveriam surgir na minha mente não mais homens, mas
miseráveis produtos de leis miseráveis. Por isso, a gravidade da luta pela vida
que sustentei, evitou que eu capitulasse por mero sentimentalismo ante os pecos
resultados desse processo de evolução.
Não,
isso não deveria ser compreendido assim.
Já,
naqueles tempos, eu havia chegado à conclusão de que só um caminho duplo poderia
conduzir ao objetivo da melhoria dessa situação: um mais profundo sentimento de
responsabilidade no sentido do estabelecimento de melhores bases para a nossa
evolução, combinado isso com a brutal resolução de demolir todas as
incorrigíveis excrescências.
Assim como a
natureza concentra os seus maiores esforços não na conservação do que existe mas
no cultivo do que cria, para continuação da espécie, assim também na vida humana
trata-se menos de melhorar artificialmente o que há de mau - o que, pela
natureza humana, em noventa e nove por cento dos casos é impossível - do que,
desde o início, assegurar, por melhores métodos, a evolução das novas
criações
Já durante a minha luta pela vida em
Viena, tornou-se evidente ao meu espírito que a atividade social nunca deverá
ser vista como uma obra de proteção sem- finalidade e irrisória, mas sim na
remoção de defeitos substanciais na organização de nossa vida econômica e
cultural que possam concorrer para a degeneração dos indivíduos ou pelo menos
para o seu desvio.
A dificuldade dessa maneira
de proceder em face dos últimos e brutais meios contra os delitos dos inimigos
do Estado, jaz justamente na incerteza do julgamento sobre os. motivos íntimos
ou causas principais dos fenômenos
contemporâneos.
Essa incerteza é fundada na
convicção da culpa de cada um nessas tragédias do passado e inutiliza toda séria
e firme resolução. Causa ao mesmo tempo, a fraqueza e a indecisão na execução
até mesmo das mais necessárias medidas de
conservação.
Quando um tempo vier não mais
empanado pela sombra da consciência da própria culpabilidade, a conservação de
si mesmo criará a tranqüilidade íntima, a força exterior, brutal e sem
considerações, para matar os maus rebentos da erva
ruim.
Como o Estado Austríaco praticamente
desconhecia qualquer legislação social, sua incapacidade para o combate de morte
aos maus germes saltava diante dos nossos olhos em toda sua
evidência.
Eu não sei o que naqueles tempos
mais me horrorizava, se 'a miséria econômica dos meus camaradas, se a sua
grosseria espiritual .e moral e o nível baixo de sua
cultura.
Quantas vozes não se tomava de cólera
a nossa burguesia, quando, da boca de algum miserável vagabundo, ouvia a
declaração de que lhe era indiferente ser ou não alemão, contanto que ele
tivesse a sua subsistência garantida.
Essa
falta de orgulho nacional, é, então, censurada da maneira mais incisiva e a
repulsa por um tal modo de sentir é expressa em termos
enérgicos.
Quantos, porém, já se fizeram a
pergunta sobre quais eram as causas de possuírem eles próprios melhores
sentimentos?
Quantos compreendem a infinidade
de recordações pessoais sobre a grandeza da pátria, da nação,' em todas as
fronteiras da vida artística e cultural que lhes inspiram o justo orgulho de
poderem pertencer a um povo tão
favorecido?
Quantos pensam na dependência do
orgulho nacional em relação ao conhecimento das grandezas da Pátria em todos
esses domínios?
Refletem nossos círculos
burgueses em que irrisória extensão esses motivos de orgulho nacional se
apresentam ao povo?
Ninguém se desculpe com o
argumento de que "em outros países a coisa não se passa de outra maneira" e que,
não obstante, o trabalhador orgulha-se da sua nacionalidade. Mesmo que isso
fosse assim, não poderia servir como desculpa para a nossa própria negligência.
Tal, porém, não se dá. O que nós sempre pintamos como uma educação
"chauvinística" dos franceses, por exemplo, não é mais do que a exaltação das
grandezas da França em todos os domínios da Cultura, ou da "civilisation", como
a denominam os nossos vizinhos.
O jovem francês
não é educado para o objetivismo, mas para as opiniões subjetivas, que a gente
só pode avaliar, quando se trata da significação das grandezas políticas ou
culturais da sua pátria.
Essa educação terá que
ser sempre restrita aos grandes e gerais pontos de vista que, se preciso, por
meio de eterna repetição, se gravem na memória e nos sentimentos do
povo.
Entre nós, aos erros por omissão,
junta-se ainda a destruição do pouco que o indivíduo tem a felicidade de
aprender na escola. O envenenamento político do nosso povo elimina ainda esse
pouco do coração e da memória das vastas massas, quando a necessidade e os
sofrimentos já não o tinham feito.
Pense-se no
seguinte.
Em um alojamento subterrâneo,
composto de dois quartos abafados, mora uma família proletária de sete pessoas.
Entre os cinco filhos, suponhamos um de três anos. É esta a idade em que a
consciência da criança recebe as primeiras impressões. Entre os mais dotados
encontra-se, mesmo na idade madura, vestígio da lembrança desse tempo. O espaço
demasiado estreito para tanta gente não oferece condições vantajosas para a
convivência. Brigas e disputas, só por esse motivo, surgirão freqüentemente. As
pessoas não vivem umas com as outras, mas se comprimem umas contra as outras.
Todas as divergências, sobretudo as menores, que, nas habitações espaçosas,
podem ser sanadas por um ligeiro isolamento, conduzem aqui a repugnantes e
intermináveis disputas. Para as crianças isso é ainda suportável. Em tais
situações, elas brigam sempre e esquecem tudo depressa e completamente. Se,
porém, essa luta se passa entre os pais, quase todos os dias, e de maneira a
nada deixar a desejar em matéria de grosseria, o resultado de uma tal lição de
coisas faz-se sentir entre as crianças. Quem tais meios desconhece dificilmente
pode fazer uma idéia do resultado dessa lição objetiva, quando essa discórdia
recíproca toma a forma de grosseiros desregramentos do pai para com a mãe e até
de maus tratos nos momentos de embriaguez. Aos seis anos, já o jovem conhece
coisas deploráveis, diante das quais até um adulto só horror pode sentir.
Envenenado moralmente, mal alimentado, com a pobre cabecinha cheia de piolhos, o
jovem "cidadão" entra para a escola.
A custo
ele chega a ler e escrever. Isso é quase tudo. Quanto a aprender em casa, nem se
fale nisso. Até na presença dos filhos, mãe e pai falam da escola de tal maneira
que não se pode repetir e estão sempre mais prontos a dizer grosserias do que
pôr os filhos nos joelhos e dar-lhes conselhos. O que a criança ouve em casa não
é de molde a fortalecer o respeito às pessoas com que vai conviver. Ali nada de
bom parece existir na humanidade; todas as instituições são combatidas, desde o
professor até às posições mais elevadas do Estado. Trata-se de religião ou da
moral em si, do Estado ou da sociedade, tudo é igualmente ultrajado da maneira
mais torpe e arrastado na lama dos mais baixos sentimentos. Quando o rapazinho,
apenas com quatorze anos, sai da escola, é difícil saber o que é maior nele: a
incrível estupidez no que diz respeito a conhecimentos reais ou a cáustica
imprudência de suas atitudes, aliada a uma amoralidade que, naquela idade, faz
arrepiar os cabelos.
Esse homem, para quem já
quase nada é digno de respeito, que nada de grande aprendeu a conhecer, que, ao
contrário, conhece todas as vilezas humanas, tal criatura, repetimos, que
posição poderá ocupar na vida, na qual ele está à
margem?
De menino de treze anos ele passou, aos
quinze, a um desrespeitador de toda
autoridade.
Sujidade e mais sujidade, eis tudo
o que ele aprendeu. E isso não é de molde a estimulá-lo a mais elevadas
aspirações.
Agora entra ele, pela primeira vez,
na grande escola da vida.
Então começa a mesma
existência que nos anos da - meninice ele aprendeu de seus pais. Anda para cima
e para baixo, entra em casa Deus sabe quando, para variar bate ele mesmo na
alquebrada criatura que foi outrora sua mãe, blasfema contra Deus e o mundo e,
enfim, por qualquer motivo especial, é condenado e arrastado a uma prisão de
menores.
Lá recebe ele os últimos
polimentos.
O mundo burguês admira-se, no
entanto, da falta de "entusiasmo nacional" deste jovem
"cidadão".
A burguesia vê, como no teatro e no
cinema, no lixo da literatura e na torpeza da imprensa, dia a dia, o veneno se
derramar sobre o povo, em grandes quantidades, e admira-se ainda do precário
"valor moral", da "indiferença nacional" da massa desse povo, como se a sujeira
da imprensa e do cinema e coisas semelhantes pudessem fornecer base para o
conhecimento das grandezas da Pátria, abstraindo-se mesmo a educação individual
anterior. Pude então bem compreender a seguinte verdade, em que jamais havia
pensado:
O problema da "nacionalização" de um
povo deve começar pela criação de condições sociais sadias como fundamento de
uma possibilidade de educação do indivíduo. Somente quem, pela educação e pela
escola, aprende a conhecer as grandes alturas, econômicas e, sobretudo,
políticas da própria Pátria, pode adquirir e adquirirá, certamente, aquele
orgulho íntimo de pertencer a um tal povo. Só se pode lutar pelo que se ama, só
se pode amar o que se respeita e respeitar o que pelo menos se
conhece.
Logo que o interesses pela questão
social foi em mim despertado, comecei a estudá-la profundamente. Aos meus olhos
surgia um novo mundo até então desconhecido.
No
ano de 1909 para 1910, minha própria situação modificou se um pouco porque não
precisava mais ganhar o pão de cada dia como ajudante de operário. Já
trabalhava, por minha conta, como desenhista e aquarelista. Continuava a ganhar
muito pouco - o essencial para viver - mas em compensação tinha lazeres para
aperfeiçoar-me na profissão que havia escolhido. Já não entrava em casa, à
noite, como antigamente, cansado ao extremo, incapaz de parar a vista em um
livro sem adormecer dentro de pouco tempo. Meu trabalho de agora corria paralelo
com a minha profissão artística. Podia, então, como senhor do meu próprio tempo,
dividi-lo melhor do que antes.
Eu pintava para
ganhar o pão e estudava por prazer.
Assim foi
possível às minhas observações sobre a questão social juntar o complemento
teórico indispensável. Eu estudava quase tudo que sobre esse assunto se podia
assimilar em livros, dando assim às minhas próprias idéias base mais
sólida.
Creio que os que comigo conviviam
naquele tempo tinham-me por um tipo
esquisito.
Era natural que eu, com ardor,
satisfizesse à minha paixão pela arquitetura. Ao lado da música, a arquitetura
me parecia a rainha das artes. Minha atividade, em tais condições, não era um
trabalho, mas um grande prazer. Podia ler ou desenhar até tarde da noite, sem
cansar-me absolutamente. Assim fortalecia-se a convicção de que o meu belo
sonho, depois de longos anos, transformar-se-ia em realidade. Estava
inteiramente convencido de um dia conquistar um nome como
arquiteto.
Não me parecia muito significativo
que eu também tivesse o maior interesse por tudo que se relacionasse com a
política. Ao contrário, isso era, em minha opinião, um dever natural de cada ser
pensante. Quem nada entende de política perde o direito a qualquer critica, a
qualquer reivindicação.
Também sobre esse
assunto li e aprendi muito.
Sob o nome de
leitura, concebo coisa muito diferente do que pensa a grande maioria dos
chamados intelectuais.
Conheço indivíduos que
lêem muitíssimo, livro por livro letra por letra, e que, no entanto, não podem
ser apontados como "lidos". Eles possuem uma multidão de "conhecimentos", mas o
seu cérebro não consegue executar uma distribuição e um registro do material
adquirido. Falta-lhes a arte de separar, no livro, o que lhes é de valor e o que
é inútil, conservar para sempre de memória o que lhes interessa e, se possível,
passar por cima, desprezar o que não lhes traz vantagens, em qualquer hipótese
não conservar consigo esse peso sem finalidade. A leitura não deve ser vista
como finalidade, mas sim como meio para alcançar uma finalidade. Em primeiro
lugar, a leitura deve auxiliar a formação do espírito, a despertar as
disposições intelectuais e inclinações de cada um. Em seguida, deve fornecer o
instrumento, o material de que cada um tem necessidade na sua profissão, tanto
para o simples ganha-pão como para a satisfação de mais elevados desígnios. Em
segundo lugar, deve proporcionar uma idéia de conjunto do mundo. Em ambos os
casos, é, porem, necessário que o conteúdo de qualquer leitura não seja confiado
à guarda da memória na ordem de sucessão dos livros, mas como pequenos mosaicos
que, no quadro de conjunto, tomem o seu lugar na posição que lhes é destinada,
assim auxiliando a formar este quadro no cérebro do leitor. De outra maneira,
resulta um bric-á-brac de matérias aprendidas de cor, inteiramente inúteis, que
transformam o seu infeliz possuidor em um presunçoso, seriamente convencido de
ser um homem instruído, de entender alguma coisa da vida, de possuir cultura, ao
passo que a verdade é que, a cada acréscimo dessa sorte de conhecimentos, mais
se afasta do mundo, até que acaba em um sanatório ou, como "político", em um
parlamento.
Nunca um cérebro assim formado
conseguirá, da confusão de sua "ciência", retirar o que é apropriado às
exigências de determinado momento, pois seu lastro espiritual está arranjado não
na ordem natural da vida mas na ordem de sucessão dos livros, como os leu e pela
maneira por que amontoou os assuntos no cérebro. Quando as exigências da vida
diária dele reclamam o justo emprego do que outrora aprendeu então precisará
mencionar os livros e o número das páginas e, pobre infeliz, nunca encontrará
exatamente o que procura.
Nas horas críticas,
esses "sábios", quando se vêem na dolorosa contingência de pesquisar casos
análogos para aplicar às circunstâncias, só descobrem receitas
falsas.
Não fosse assim e não se poderiam
conceber os atos políticos dos nossos sábios heróis do Governo que ocupam as
mais elevadas posições, a menos que a gente se decidisse a aceitar as suas
soluções não como conseqüências de disposições intelectuais patológicas, mas
como infâmias e trapaçarias.
Quem possui,
porém, a arte da boa leitura, ao ler qualquer livro, revista ou brochura,
dirigirá sua atenção para tudo o que, no seu modo de ver, mereça ser conservado
durante muito tempo, quer porque seja útil, quer porque seja de valor para a
cultura geral.
O que por esse meio se adquire
encontra sua racional ligação no quadro sempre existente que a representação
desta ou daquela coisa criou, e corrigindo ou reparando, realizará a justeza ou
a clareza do mesmo. Se qualquer problema da vida se apresenta para exame ou
contestação, a memória, por esta arte de ler, poderá recorrer ao modelo do
quadro de percepção já existente, e por ele todas as contribuições coligidas
durante dezenas de anos e que dizem respeito a esse problema são submetidas a
uma prova racional e ao nosso exame, até que a questão seja esclarecida ou
respondida.
Só assim a leitura tem sentido e
finalidade.
Um leitor, por exemplo, que, por
esse meio, não fornecer à sua razão os fundamentos necessários, nunca estará na
situação de defender os seus pontos de vista ante uma contradita, correspondam
os mesmos mil vezes à verdade. Em cada discussão a memória o abandonará
desdenhosamente. Ele não encontrará razões nem para o fortalecimento de suas
afirmações, nem para a refutação das idéias do adversário. Enquanto isso
acarreta, como no caso de um orador o ridículo da própria pessoa, ainda se pode
tolerar; de péssimas conseqüências é, porém, que esses indivíduos que "sabem"
tudo e não são capazes de coisa alguma, sejam colocados na direção de um
Estado.
Muito cedo esforcei-me por ler por
aquele processo e fui, da maneira mais feliz, auxiliado pela memória e pela
razão. Observadas as coisas por esse aspecto, foi me fecundo e proveitoso,
sobretudo o tempo que passei em Viena. A experiência da vida diária servia de
estímulo para sempre novos estudos dos mais diversos problemas. Quando eu, por
fim, cheguei à situação de poder fundamentar a realidade na teoria e tirar a
prova da teoria na experiência, na prática, estava em condições de evitar o
excesso de apego à teoria, ou descer demais à
realidade.
Assim, a experiência da vida diária,
nesse tempo, em dois dos mais importantes problemas, além do social, tornou-se
definitiva e serviu de estimulante para sólido estudo
teórico.
Quem sabe se eu algum dia me teria
aprofundado na teoria e na vida do marxismo, se, outrora, eu não tivesse
quebrado a cabeça com esse problema? O que eu, na minha mocidade, conhecia sobre
a social democracia era muito pouco e muito
errado.
Causava-me intenso prazer que a social
democracia dirigisse a luta pelo direito do voto secreto e universal. A minha
razão já me dizia, porém, que essa conquista deveria levar a um enfraquecimento
do regime dos Habsburgos, por mim já tão
odiado.
Na convicção de que o Estado danubiano
nunca se manteria sem o sacrifício do espírito alemão, e que o mesmo prêmio de
uma lenta eslavização do elemento germânico de modo algum ofereceria garantia de
um governo verdadeiramente viável, pois a força criadora do Estado dos eslavos é
muito hipotética, via eu com prazer todo movimento que, na minha imaginação,
poderia contribuir para o desmembramento desse Estado de dez milhões de alemães,
inviável e condenado à morte. Quanto mais o palavrório corroía o parlamento,
mais próximo deveria estar a hora da ruína desse Estado babilônico e com ela
também a hora da libertação dos meus compatriotas austro-alemães. Só assim se
poderia voltar à antiga anexação à
mãe-pátria.
Por isso, a atividade da
social-democracia não me parecia antipática. Como esse movimento se preocupava
em melhorar as condições vitais do operariado - como eu acreditava na minha
ingenuidade de outrora - pareceu-me melhor falar a seu favor do que contra. O
que mais me afastava da social-democracia era sua posição de adversária em
relação ao movimento pela conservação do espírito germânico, a deplorável
inclinação em favor dos "camaradas" eslavos que só aceitavam esse alerta quando
era acompanhado de concessões práticas, repelindo-o, arrogantes e orgulhosos,
quando não viam interesses. Davam, assim, ao importuno mendigo a paga
merecida.
Na idade de dezessete anos, a palavra
marxismo era-me pouco conhecida, enquanto socialismo e social-democracia
pareciam-me concepções idênticas. Foi preciso, também, nesse caso, que o punho
forte do destino me abrisse os olhos para essa maldita maneira de ludibriar o
povo.
Até então eu só tinha contato com a
social-democracia como observador em algumas demonstrações coletivas, sem
possuir nenhuma idéia da mentalidade de seus adeptos ou da essência da doutrina.
De repente. pude sentir os efeitos de sua doutrinação e de sua maneira de
encarar o mundo. O que, talvez só depois de dezenas de anos, tivesse acontecido,
aprendi agora no decurso de poucos meses, isto é, a verdadeira significação de
uma peste ambulante sob a máscara de virtude social e amor ao próximo e da qual
se deve depressa libertar a terra, pois, ao contrário, muito facilmente a
humanidade será por ela imolada.
No serviço de
construções teve lugar o meu primeiro encontro com os sociais-democratas. Logo
de começo, não foi muito agradável. Minhas roupas ainda estavam em ordem, minha
linguagem era cuidada, minha vida comedida. Tinha tanto que lutar com a minha
sorte que pouco podia cuidar do que me cercava. Só procurava trabalho para não
passar fome e para ter a possibilidade de continuar, mesmo lentamente, a minha
educação. Talvez eu não me tivesse absolutamente preocupado com o novo meio em
que me achava, se, 1á no terceiro ou quarto dia, não se tivesse dado um fato que
me forçou a tomar imediatamente uma posição definida: fui intimado a entrar no
sindicato.
Meus conhecimentos sobre organização
sindical eram então quase nulos. Nem a sua utilidade nem a sua inutilidade podia
eu aquilatar. Quando me esclareceram que eu deveria entrar, recusei-me.
Fundamentava a minha resolução com a razão de que eu não entendia do assunto e
que, sobretudo, não me deixava levar à força para parte alguma. Talvez fosse a
primeira a razão por que não me puseram imediatamente na rua. Talvez esperassem
que, dentro de alguns dias, eu estivesse convertido ou pelo menos mais
dócil.
Haviam-se enganado
radicalmente.
Depois de quatorze dias, eu não
poderia mais entrar para o sindicato, mesmo que o tivesse desejado. Nestes
quatorze dias, pude conhecer de mais perto os que me cercavam, de modo que
nenhuma força do mundo poderia mais arrastar-me a uma organização, cujos esteios
me apareceram sob uma luz tão desfavorável.
Nos
primeiros dias fiquei indignado. Ao meio-dia, uma
parte dos operários ia para a estalagem próxima, enquanto a outra ficava no
local da- construção e aí tinha o seu magro almoço. Estes eram casados, para os
quais as mulheres, em miseráveis vasilhas, traziam a sopa do meio-dia. Para o
fim da semana, o número desses era sempre maior. A razão disso só mais tarde
compreendi.
Então conversava-se política.
Eu bebia minha garrafa de leite e comia o meu
pedaço de pão, conservando-me sempre afastado, e estudava com atenção meus novos
conhecidos ou refletia sobre a minha triste sorte. Não obstante isso, ouvia mais
do que o suficiente. Pareceu-me freqüentemente que se aproximavam de mim de
propósito para me forçarem a tomar uma posição. Em todo caso, como vim a saber,
isso visava o efeito de me provocar.
Ali tudo
se negava: a nação era uma invenção das classes capitalistas (que número
infinito de vezes ouvi essa palavra!); a Pátria era um instrumento da burguesia
para exploração das massas trabalhadoras; a autoridade da lei era simples meio
de opressão do proletariado; a escola era instituto de cultura do material
escravo e mantenedor da escravidão; a religião era vista como meio de atemorizar
o povo para melhor exploração do mesmo; a moral não passava de uma prova da
estúpida paciência de carneiro do povo. Não havia nada, por mais puro, que não
fosse arrastado na lama mais asquerosa.
De
começo, tentei manter-me em silêncio. Por fim, não podia mais. Comecei a tomar
posição, comecei a contraditar. Então passei a compreendei- que essa oposição de
nada valia, enquanto eu não possuísse conhecimentos seguros sobre os pontos
debatidos. Comecei a pesquisar nas próprias fontes, de onde eles extraíam a sua
fictícia sabedoria. Li livros sobre livros, brochuras sobre brochuras. No local
do serviço, as coisas chegavam freqüentemente à exaltação. Eu discutia cada vez
melhor, até que um dia foi empregado um meio que facilmente levava de vencida a
razão: o terror, a força. Alguns dos defensores do lado contrário intimaram-me a
abandonar a construção imediatamente ou a ser jogado do andaime. Como estava
sozinho e a resistência seria impossível, preferi seguir o primeiro alvitre,
adquirindo assim mais uma experiência.
Saí,
enojado, mas, ao mesmo tempo, tão impressionado que já agora seria inteiramente
impossível para mim abandonar a questão. Não. Depois da eclosão da primeira
revolta, a obstinação de novo venceu. Estava firmemente resolvido a voltar,
apesar de tudo para outro serviço de construção. Essa decisão foi fortalecida
pela situação precária em que me encontrei algumas semanas mais tarde, depois de
gastar as pequenas economias. Não me restava outra saída, quer eu quisesse quer
não. E cena idêntica desenrolou-se, para acabar da mesma forma que a
primeira.
Travou-se uma luta no meu íntimo, que
se define nesta pergunta: isso é gente digna de pertencer a um grande
povo?
Eis uma pergunta angustiosa. Se a
respondermos afirmativamente, a luta por uma nacionalidade merecerá os trabalhos
e os sacrifícios que os melhores fazem por um tal rebotalho? Se a resposta for
negativa, então o nosso povo já está muito pobre em
homens.
Com desânimo inquietador via eu,
naqueles dias críticos e atormentados, a massa, que já não pertencia a seu povo,
tornar-se um exército ameaçador.
Com que
sentimentos diferentes fitava, então, as filas sem fim dos trabalhadores
vienenses em um dia de demonstração coletiva! Durante quase duas horas, de pé,
um dia, observei, com a respiração suspensa, a monstruosa onda humana que rolava
lentamente. Tomado de um desânimo inquieto, abandonei a praça e dirigi-me para
casa. No caminho, vi em uma tabacaria o "Arbeiterzeitung", órgão central da
antiga social-democracia. Em um café popular, que eu freqüentava constantemente
a fim de ler os jornais, esse periódico também era exposto à venda. Eu não
podia, porém, fazer o sacrifício de passar uma vista por mais de dois minutos na
folha infame, que, para mim, tinha o efeito do
vitríolo.
Debaixo da acabrunhadora impressão
que a demonstração coletiva havia produzido, senti uma voz íntima que me
incitava a comprar o jornal e lê-lo inteiramente. À noite tratei disso, vencendo
a crescente repulsa que sempre experimentava ao ver essa torneira de mentiras
concentradas. Melhor do que em toda a literatura teórica, pude, pela leitura
diária da imprensa social-democrática, estudar a essência do movimento e o curso
das suas idéias.
Que diferença entre as
cintilantes frases de liberdade, beleza e dignidade da literatura teórica, entre
o fogo-fátuo do palavrório que, laboriosamente, aparenta a mais profunda e
irresistível sabedoria, pregada com uma segurança profética, e a brutal
virtuosidade da mentira da imprensa diária que trabalhava pela salvação da nova
humanidade sem recuar ante nenhuma objeção, usando de todos os recursos da
calúnia!
Uma é destinada aos estúpidos das
camadas intelectuais médias e superiores, a outra às
massas.
A meditação sobre a literatura e a
imprensa dessa doutrinação, servia-me para descobrir de novo a minha
gente.
O que, a princípio, me parecia um abismo
intransponível, devia tornar-se motivo para amar cada vez mais o meu
povo.
Só um louco poderia, depois de conhecer
esse monstruoso trabalho de envenenamento, condenar ainda as vítimas do mesmo.
Quanto mais independente eu me tornava nos anos seguintes, tanto mais longe
alcançava a minha vista as causas íntimas do êxito da social-democracia. Então
compreendendo a significação da exigência brutal feita ao operário para só ler
jornais vermelhos, só freqüentar assembléias vermelhas, só ler livros vermelhos,
etc., vi, muito claro, os efeitos violentos dessa doutrinação da
intolerância.
A psique das massas é de natureza
a não se deixar influenciar per meias medidas, por atos de
fraqueza.
Assim como as mulheres, cuja
receptividade mental é determinada menos por motivos de ordem abstrata do que
por uma indefinível necessidade sentimental de uma força que as complete e, que,
por isso preferem curvar-se aos fortes a dominar os fracos, assim também as
massas gostam mais dos que mandam do que dos que pedem e sentem-se mais
satisfeitas com uma doutrina que não tolera nenhuma outra do que com a tolerante
largueza do liberalismo. Elas não sabem o que fazer da liberdade e, por isso,
facilmente sentem-se abandonadas.
A impudência
do terrorismo espiritual passa-lhes despercebida, assim como os crescentes
atentados contra a sua liberdade que as deveriam levar à revolta. Elas não se
apercebem, de nenhum modo, dos erros intrínsecos dessa doutrinação. Elas vêem
apenas a força incontrastável e a brutalidade de suas resolutas manifestações
externas, ante as quais sempre se curvam.
Se
uma doutrina que encerrasse mais inveracidade ao lado de idêntica brutalidade na
propaganda, fosse oposta à social-democracia, triunfaria, do mesmo modo, por
mais áspera que fosse a luta.
Em menos de dois
anos, não só a doutrina da social-democracia mas também o seu emprego como
instrumento prático, tornaram-se-me claros.
Eu
compreendi o infame terror espiritual que esse movimento exerce especialmente
sobre a burguesia.
A um dado sinal, os seus
propagandistas lançam um chuveiro de mentiras e calúnias contra o adversário que
lhes parece mais perigoso, até que se rompam os nervos dos agredidos que, para
terem tranqüilidade, se rendem ao inimigo.
Mas
é do destino dos tolos nunca alcançarem o
sossego.
O jogo recomeça e repete-se inúmeras
vozes, até que o pavor ante os monstros selvagens provoca uma significativa
imobilidade do adversário.
Como a social
democracia, por experiência própria, conhece muito bem o valor da força,
lança-se mais violentamente contra aqueles em cuja individualidade descobre
algum sistema de resistência. Por outro lado, incensa todos os fracos do lado
oposto, a princípio cautelosamente e depois abertamente, conforme essas
qualidades morais sejam reais ou
imaginárias.
Eles receiam menos um gênio
impotente e sem vontade do que uma natureza forte, mesmo intelectualmente
modesta.
A social-democracia se recomenda
sobretudo aos fracos de espírito e de
caráter.
Esse partido sabe aparentar que só ele
conhece o segredo da paz e tranqüilidade, enquanto, cautelosamente mas de
maneira decidida, conquista uma posição depois da outra, ora por meio de
discreta pressão, ora através de requintadas escamoteações em momentos em que a
atenção geral está dirigida para outros assuntos, não quer por ele ser
despertada ou tem a oportunidade como não merecendo grande interesses ou receia
provocar o perverso adversário.
Essa é uma
tática que, tendo em conta exatamente tidas as fraquezas humanas, é coroada de
êxito matemático, quando o adversário não aprende a usar gás venenoso contra gás
venenoso, isto é, as mesmas armas do
agressor.
É preciso que se diga às naturezas
fracas que se trata de uma luta de vida ou de
morte.
Não menos compreensível para mim
tornou-se a significação do terror material em relação aos indivíduos e às
massas.
Aqui também havia um cálculo exato de
atuação psicológica. O terror nos lugares de trabalho, nas fábricas, nos locais
de reunião e por ocasião das demonstrações coletivas, era sempre coroado de
êxito, enquanto um terror maior não se lhe
opunha.
Quando acontece essa última hipótese, o
partido, em gritos de pavor, embora habituado a desrespeitar a autoridade do
Estado, em altos berros pedirá seu auxílio, para, na maioria dos casos, no meio
da confusão geral, alcançar o seu verdadeiro objetivo, isto é: encontrar
covardes autoridades que, na tímida esperança de poder de futuro contar com o
temível adversário, auxiliem-no a combater o
inimigo.
Que impressão um tal êxito exerce
sobre o espírito das vastas massas e dos seus adeptos, assim como sobre o
vencedor, só pode avaliar quem conhece a alma do povo, não através de livros mas
pelo estudo da própria vida, pois, enquanto, no círculo dos vencedores, o
triunfo alcançado é tido como uma vitória do direito de sua causa, o adversário
batido, na maioria dos casos, duvida do êxito de uma outra
resistência.
Quanto melhor eu conhecia os
métodos da violência material, tanto mais me inclinava a desculpar as centenas
de milhares de proletários que cediam ante a força
bruta.
A compreensão desse fato devo
principalmente aos meus antigos tempos de sofrimentos, os quais me fizeram
entender o meu povo e fazer a diferença entre as vítimas e os seus
condutores.
Como vítimas devem ser vistos os
que foram submetidos a essa situação corruptora. Quando eu me esforçava por
estudar, na vida real, a natureza íntima dessas camadas "inferiores", não podia
delas fazer uma idéia justa, sem a segurança de que, nesse meio, também
encontrava qualidades recomendáveis, como sejam capacidade de sacrifício, fiel
camaradagem, extraordinária sobriedade, discreta modéstia, virtudes essas muito
comuns, sobretudo nos antigos sindicatos. Se é verdade que essas virtudes se
diluíam cada vez mais nas novas gerações, sob a atuação das grandes cidades,
incontestável é também que muitas conseguiam triunfar sobre as vilezas comuns da
vida. Se esses homens, bons e bravos, na sua atividade política, entravam nas
fileiras dos inimigos do nosso povo e a estes auxiliavam, era porque não
compreendiam e nem podiam compreender a vileza da nova doutrina ou porque, em
ultima ratio, as injunções sociais eram mais fortes do que todas as vontades em
contrário. As contingências da vida a que, de um modo ou de outro, estavam
fatalmente sujeitos, faziam-nos entrar no acampamento da
social-democracia.
Como a burguesia, inúmeras
vezes, da maneira mais inepta e também a mais imoral, fazia frente às mais
justas aspirações coletivas, sem muitas vezes retirar ou esperar retirar
qualquer proveito de uma tal atitude, mesmo o mais ordeiro trabalhador saia da
organização sindical para tomar parte na atividade
política.
Milhões de proletários, na
intimidade, foram, sem dúvida, de começo, inimigos do partido
social-democrático. Foram, porém, derrotados na sua oposição pela conduta idiota
do partido burguês combatendo todas as reivindicações da massa dos
trabalhadores.
A impugnação cega da burguesia a
todos os ensaios por uma melhoria nas condições do trabalho, tais como um
aparelhamento de defesa contra as máquinas, a proteção ao trabalho das crianças
e a proteção da mulher, pelo menos nos últimos meses de gravidez, tudo isso
auxiliou a social-democracia a pegar as massas nas suas redes. Esse partido
sabia aproveitar todos os casos em que pudesse manifestar sentimentos de piedade
para com os oprimidos. Nunca mais poderá a nossa burguesia política reparar os
seus erros, pois, enquanto ela se opunha a todas as tentativas por uma remoção
dos males sociais, semeava ódio e justificava mesmo as afirmações dos inimigos
da nacionalidade, segundo as quais só o Partido Social Democrata defendia os
interesses das classes produtoras.
Aí estão as
razões morais da resistência dos sindicatos e os motivos por que prestaram os
melhores serviços àquele partido político.
Nos
meus anos de aprendizado em Viena fui forçado, quer quisesse quer não, a tomar
posição no problema dos sindicatos.
Como eu os
via como parte integral e indivisível do Partido Social Democrata, minha decisão
foi rápida e falsa.
Como era natural,
recusei-me a entrar para o sindicato.
Também
nesta importante questão foi a vida real que me serviu de
mestre.
O resultado foi uma reviravolta nos
meus primeiros julgamentos.
Aos vinte anos, já
fazia a diferença entre o sindicato como meio de defesa dos direitos sociais dos
empregados e de luta pela melhoria das condições de vida dos mesmos e o
sindicato como instrumento do partido na luta política de
classes.
Como a social-democracia compreendeu a
enorme significação do movimento sindicalista, assegurou para si a colaboração
desse instrumento e dai o seu êxito; como a burguesia não a compreendeu, isso
lhe custou a sua posição política. Na sua teimosa oposição, imaginou a burguesia
fazer parar uma evolução fatal e, na realidade, conseguiu apenas forçá-la a
tomar um caminho ilógico. Dizer-se que o movimento sindical em si é inimigo da
Pátria é uma idiotice, e além disso, uma inverdade. O contrário é que é a
verdade. Se uma atividade sindical tem como objetivo a melhoria de uma classe
que constitui uma das colunas mestras da nação e se esforça por realizá-lo, essa
atividade não só não se exerce contra a Pátria e o Estado mas, no verdadeiro
sentido da palavra, consulta os interesses nacionais. É fora de qualquer dúvida
que essa atuação auxilia a criar programas sociais, sem o que nem se deve pensar
em uma educação nacional coletiva. Esse movimento atinge seu maior mérito
quando, pelo combate aos cancros sociais existentes, ataca as causas das
moléstias do corpo e do espírito, contribuindo para a conservação da saúde do
povo. É ociosa a discussão sobre as vantagens dessas
agitações.
Enquanto, entre os que distribuírem
trabalho, houver homens que não compreendam a questão social ou possuam idéias
erradas de direito e de justiça, é não só direito mas dever dos por eles
empregados, - que aliás formam uma parte do nosso povo - proteger os interesses
da quase totalidade contra a avidez ou a irracionalidade de poucos, pois a
manutenção da fé na massa do povo é para o bem-estar da nação tão importante
quanto a conservação da sua saúde.
Ambos esses
interesses serão seriamente ameaçados pelos indignos empregadores que não têm os
mesmos sentimentos da coletividade, de que vivem divorciados. Devido à sua
condenável atitude, inspirada na ambição ou na intransigência, nuvens
ameaçadoras anunciam tempestades
futuras.
Remover as causas de uma tal evolução
é conquistar um mérito em relação à Pátria. Agir ao contrário é trabalhar contra
os interesses da nação.
Não se diga que cada um
tem independência suficiente para tirar todas as conclusões das injustiças reais
ou fictícias que lhe são feitas. Não, isso é hipocrisia e deve ser visto como
tentativa para desviar a atenção das soluções
justas.
A alternativa é a seguinte: evitar
acontecimentos nocivos à coletividade consulta ou não os interesses da nação? Na
primeira hipótese, a luta deve ser aceita com todas as armas que possam
assegurar o triunfo.
O trabalhador,
individualmente, não está nunca em condições de empenhar-se, com êxito, em uma
luta contra o poder do grande empregador. Nesse conflito não se trata do
problema da vitória do direito. Se assim fosse, o simples reconhecimento desse
direito faria cessar toda luta, pois desapareceria, em ambas as partes, o desejo
de combater. Trata-se, porém, de uma questão de força. Naquele caso, o
sentimento de justiça por si só faria terminar a luta de modo honroso, ou
melhor, nunca se chegaria a ela. Se atos indignos ou contrários aos interesses
sociais arrastam à -reação, a luta só poderá ser decidida em favor do lado mais
forte, salvo se a justiça se dispuser à solução desses
males.
Além disso, é evidente que o empregador,
apoiado na força concentrada de suas empresas, terá que enfrentar o corpo de
empregados, se não quiser ser compelido a perder, desde o início, qualquer
esperança de vitória.
Assim a organização
sindical pode produzir o fortalecimento dos ideais sociais por unia atuação mais
prática e, com isso, o afastamento de causas de irritação que sempre dão motivo
a descontentamentos e a queixas. Se isso não acontece deve-se em grande parte
àqueles que a todas as soluções legais das dificuldades do povo julgam opor
obstáculos ou impedi-las por meio de sua influência
política.
Enquanto a burguesia não compreendia
a significação da organização sindical, ou, melhor, não queria entendê-la, e
insistia em fazer-lhe oposição, a social-democracia punha-se ao lado do
movimento combatido.
Vendo longe, ela criou
para si uma base firme que nos momentos críticos, já lhe havia servido de último
esteio. A verdade, porém, é que a antiga finalidade era, pouco a pouco,
abandonada, para dar lugar a outros
objetivos.
A social-democracia nunca pensou em
solucionar os problemas reais do movimento
profissional.
Em poucas décadas, nas mãos
espertas da social-democracia, o movimento sindical de instrumento de defesa dos
direitos sociais passou a ser instrumento de destruição da economia
nacional.
Os interesses dos trabalhadores não
deveriam em nada obstar a sua ação, pois, politicamente, o emprego de meios de
compressão econômica sempre permite a extorsão e o exercício de violências a
toda hora, sempre que, de um lado, há a necessária falta de escrúpulos e, do
outro, a suficiente estupidez junta a uma paciência de cordeiro. E isso acontece
nos dois campos em luta.
Já no começo deste
século o movimento sindical, de há muito, havia deixado de servir ao seu
objetivo de outrora.
De ano a ano, ele, cada
vez mais, caía nas mãos dos políticos da social-democracia, para, por fim, ser
utilizado apenas como pára-choque na luta de classes. Em conseqüência de
permanentes conflitos deveria, finalmente, levar à ruína toda a organização
econômica, pacientemente construída, arrastando o edifício do Estado à mesma
sorte, pela destruição de suas fundações
econômicas.
Cogitava-se cada vez menos da
defesa de todos os interesses reais do proletariado, até chegar-se à conclusão
de que a prudência política considerava como não aconselhável melhorar as
condições sociais e culturais das grandes massas, pois, ao contrário, corria-se
o perigo de que essas, tendo seus desejos satisfeitos, não mais poderiam ser
eternamente utilizadas como tropas de combate facilmente
manejáveis.
Essa evolução atemorizou de tal
maneira os guias da luta de classes que eles, por fim, se opuseram a todas as
salutares reformas sociais e, da maneira mais decidida, tomaram posição de
combate às mesmas.
Na justificação dos
fundamentos dessa atitude negativa e incompreensível nada deviam
recear.
No campo burguês estava se
escandalizado com essa visível falta de sinceridade da tática da social
democracia, sem que, porém, dai se tirassem as mínimas conclusões para um
acertado plano de ação. Justamente o receio da social-democracia diante de cada
melhoria real da situação do proletariado em relação à profundidade de sua até
então miséria cultural e social, talvez tivesse concorrido a arrancar esse
instrumento das mãos dos representantes de
classes
Isso não aconteceu, porém. Em vez de
tomar a ofensiva, a burguesia deixou apertar-se cada vez mais o cerco em torno
de si para, enfim, adotar providências inadequadas que, por muito tardias,
tornaram-se sem eficiência, e, por isso mesmo, eram facilmente repelidas. Assim
ficou tudo como antes, apenas o descontentamento tornou-se cada vez
maior.
Os "sindicatos independentes", como uma
nuvem tempestuosa, obscureciam o horizonte político, ameaçando também a
existência dos indivíduos. Essas organizações se transformaram no mais temível
instrumento de terror contra a segurança e independência da economia nacional, a
solidez do Estado e a liberdade dos
indivíduos.
Foram eles, sobretudo, que
transformaram a concepção da democracia em uma frase asquerosa e ridícula, que
profanava a liberdade e escarnecia, de maneira imperecível, da fraternidade,
nesta proposição: "Se não quiseres ser dos nossos, nós te arrebentaremos a
cabeça".
Assim começava eu a conhecer esses
inimigos do "gênero humano".
No decurso dos
anos, a opinião sobre eles desenvolveu-se e aprofundou-se, sem modificar-se,
porém.
Quanto mais eu estudava o aspecto
exterior da social-democracia, tanto mais crescia o desejo de penetrar na
estrutura íntima dessa doutrina.
A literatura
oficial do Partido de pouca utilidade me poderia ser na realização desse
objetivo. Ela é, no que diz respeito a questões econômicas, falsa nas suas
afirmações e conclusões e mentirosa quanto à finalidade
política.
Daí a razão por que eu me sentia, de
coração, afastado dos novos modos de expressão da eterna rabulice política e da
sua maneira de descrever as coisas.
Com um
inconcebível luxo de palavras de significação obscura, gaguejavam sentenças que
deveriam ser ricas de pensamento como eram falhas de
senso.
Só a decadência dos nossos intelectuais
das grandes cidades poderia, neste labirinto da razão, sentir-se
confortavelmente, para, no nevoeiro deste dadaismo literário, compreender a
"vida íntima", apoiado na proverbial inclinação de uma parte do nosso povo, para
sempre farejar a sabedoria profunda no meio dos paradoxos
pessoais.
Enquanto eu, na realidade de suas
demonstrações, pesava todas as mentiras e desatinos teóricos dessa doutrina,
chegava, pouco a pouco, a uma compreensão mais clara da sua
vontade.
Nestas horas apoderavam-se de mim
idéias tristes e maus presságios. Vi diante de mim uma doutrina, constituída de
egoísmo e de ódio, que, por leis matemáticas, poderá ser levada à vitória mas
arrastará a humanidade à ruína.
Nesse ínterim,
eu já tinha compreendido a ligação entre essa doutrina de destruição e o caráter
de uma certa raça para mim até então
desconhecida.
Só o conhecimento dos judeus
ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais
da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos o véu que
impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste
partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados,
vê aparecer a caricatura do marxismo.
Hoje é-me
difícil, senão impossível, dizer quando a palavra judeu pela primeira vez foi
objeto de minhas reflexões. Na casa paterna, durante a vida de meu pai, não me
lembro de tê-la ouvido. Creio que ele já via nessa palavra a expressão de uma
cultura retrógrada. No curso de sua vida, ele chegou a uma concepção mais ou
menos cosmopolita do mundo combinada a um nacionalismo radical que, também,
exercia seus efeitos sobre mim.
Na escola
também não encontrei oportunidade que me pudesse levar a uma modificação desse
modo de encarar as coisas, que me havia transmitido meu
pai.
É verdade que, na escola profissional, eu
havia conhecido um jovem judeu que era tratado por nós com certa prevenção, mas
isso somente porque não tínhamos confiança nele, devido ao seu todo taciturno e
a vários fatos que nos haviam escarmentado. Nem a mim nem aos outros despertou
isso quaisquer reflexões.
Só dos meus quatorze
para os quinze anos deparei freqüentemente com a palavra judeu, ligada em parte
a conversas sobre assuntos políticos. Sentia contra isso uma ligeira repulsa e
não podia evitar essa impressão desagradável que, aliás, sempre se apoderava de
mim quando discussões religiosas se travavam na minha
presença.
Nesse tempo eu não via a questão sob
qualquer outro aspecto.
Em Linz havia muito
poucos judeus. Com o decorrer dos séculos, o aspecto do judeu se havia
europeizado e ele se tornara parecido com gente. Eu os tinha por alemães, Não me
era possível compreender o erro desse julgamento, porque o único traço
diferencial que neles via era o aspecto religioso diferente do nosso. Minha
condenação a manifestações contrárias a eles, a perseguição que se lhes movia,
por motivos de religião como eu acreditava, levavam-me à irritação, Eu não
pensava absolutamente na existência de um plano regular de combate aos
judeus.
Com essas idéias vim para
Viena.
Absorvido pela avalancha de impressões
que a arquitetura despertava, abatido pelo peso da minha própria sorte, eu não
tinha olhos para observar a estrutura da população da grande
cidade.
Embora Viena, já naquele tempo,
possuísse duzentos mil judeus em uma população de dois milhões, não me apercebi
desse fato. Nas primeiras semanas, os meus sentidos não puderam abarcar o
conjunto de tantos valores e idéias novas. Só depois que, pouco a pouco, a
serenidade voltou e as imagens confusas dos primeiros tempos começaram a
esclarecer-se, é que mais acuradamente pude ver em torno de mim o novo mundo que
me cercava e, então, deparei também com o problema
judaico.
Não quero afirmar que a maneira por
que eu os conheci me tenha sido particularmente agradável. Eu só via no judeu o
lado religioso. Por isso, por uma questão de tolerância, considerava injusta a
sua condenação por motivos religiosos. O tom, sobretudo da imprensa
anti-semítica de Viena, parecia me indigno das tradições de cultura de um grande
povo, Causava-me mal-estar a lembrança de certos fatos da Idade Média, cuja
reprodução não desejava ver. Como esses jornais não valiam grande coisa - e a
razão disso eu então não conhecia - via neles mais o produto de mesquinha inveja
do que o resultado de uma questão de princípios, embora
falsos.
Fortaleci-me nessa maneira de pensar
pela forma infinitamente mais digna (assim pensava eu então) por que a grande
imprensa respondia a todos esses ataques ou - o que me parecia de mais mérito
ainda pelo silêncio de morte em que se
mantinha.
Lia com fervor a chamada grande
imprensa ("Neue Freie Presse", "Wiener Tageblatt", etc.) e ficava admirado ante
a extensão dos assuntos que oferecia ao leitor assim como diante da objetividade
das suas manifestações em cada caso particular. Apreciava o seu estilo elegante,
distinto. Os exageros de forma não me agradavam,
chocavam-me.
Porque eu tenha visto Viena assim,
apresento como desculpa o esclarecimento que me dei a mim
mesmo.
O que repetidamente me causava
repugnância era a maneira indigna pela qual a imprensa bajulava a
corte.
Não havia acontecimento na corte que não
fosse comunicado aos leitores em tom do mais intenso entusiasmo ou da mais
lamurienta consternação, prática essa que, mesmo tratando-se do "mais sábio
monarca" de todos os tempos, podia ser comparada aos excessos incontidos de um
galo silvestre.
Isso me parecia exagerado e era
por mim visto como uma mancha para a Democracia liberal.
Pretender as graças desta corte e de maneira
tão indigna era o mesmo que trair a dignidade da
nação.
Esta foi a primeira sombra que devia
perturbar as minhas afinidades espirituais com a grande imprensa de
Viena.
Como sempre, também em Viena, eu
acompanhava todos os acontecimentos da Alemanha com o maior ardor, quer se
tratasse de questões políticas ou de problemas
culturais.
Com uma admiração a que se juntava o
maior orgulho, eu comparava a elevação do Reich com a decadência do Estado
austríaco, Enquanto os acontecimentos da política externa, na sua maior parte,
provocavam geral contentamento, a política interna freqüentemente dava margem a
sombrias aflições. A campanha que, naquele tempo, se movia contra Guilherme II,
não tinha a minha aprovação, Nele eu não via só o Imperador dos Alemães mas
também o criador da frota alemã. A imposição feita pelo Reichstag de não
permitir ao Kaiser fazer discursos indignava-me de modo tão extraordinário,
porque essa proibição partia de uma fonte que, aos meus olhos, nenhuma
autoridade possuía, atendendo a que, em um só período de sessão, esses gansos do
parlamento haviam grassitado mais idiotices do que o poderia fazer, durante
séculos, uma inteira dinastia de imperadores, dado o seu muito menor
número.
Eu me encolerizava com o fato de, em um
país em que qualquer imbecil não só reivindicava para si o direito de crítica
mas, no Parlamento, tinha até a permissão de decretar leis para a Pátria, o
detentor da coroa imperial pudesse receber admoestações da mais superficial das
instituições de palavrório de todos os
tempos.
Irritava-me ainda mais com o fato de
ver que a mesma imprensa "vienense" que, diante de um cavalo da corte, se
desfazia nas mais respeitosas mesuras a um acidental movimento da cauda do
mesmo, aparentando cuidados que para mim não passavam de mal encoberta maldade,
pudesse exprimir o seu pensamento contra o imperador dos
alemães!
Em tais casos o sangue me subia à
cabeça.
Foi isso o que, pouco a pouco, me fez
olhar com mais atenção a grande imprensa.
Fui
forçado a reconhecer uma vez que um dos jornais anti-semíticos, o "Deutsche
Volksblatt", em uma oportunidade idêntica, portara se de maneira mais
decente.
O que também me enervava era a nojenta
bajulação com que a grande imprensa se referia à
França.
Éramos forçados a nos envergonhar de
sermos alemães quando nos chegavam aos ouvidos esses açucarados hinos de louvor
à "grande nação da cultura".
Essa lastimável
galomania mais de uma vez me levou a deixar cair das mãos um desses grandes
jornais.
Freqüentemente, procurava o
"Volksblatt" que, apesar de muito menor, parecia-me mais limpo nesses
assuntos.
Não concordava com a sua atitude
radicalmente anti-semítica, mas, de vez em quando, eu encontrava argumentações
que me faziam refletir.
De qualquer modo, por
meio de "Volksblatt", eu pude conhecer aos poucos o homem e o movimento de que
dependiam a sorte de Viena: o Dr. Karl Lueger e o Partido Social
Cristão.
Quando vim para Viena era francamente
contrário a ambos.
O movimento e o seu líder me
pareciam reacionários.
O habitual sentimento de
justiça deveria, porém, modificar esse julgamento, à proporção que se me
oferecia oportunidade de conhecer o homem e a sua atuação. Com o tempo,
tornei-me de franco entusiasmo por ele. Hoje, vejo-o, mais do que antes, como o
mais forte burgo-mestre alemão de todos os
tempos,
Quantas de minhas arraigadas convicções
caíram por terra com essa mudança de modo de ver a respeito do movimento
social-cristão!
A minha maior metamorfose foi,
porém, a que experimentei em relação ao movimento
anti-semítico.
Isso me custou, durante meses,
as maiores lutas íntimas, entre os meus sentimentos e as minhas idéias, luta em
que as idéias acabaram por triunfar.
Por
ocasião dessa áspera luta entre a educação sentimental e a razão pura, a
observação da vida de Viena prestou-me serviços
inestimáveis.
Eu já não errava pelas ruas da
importante cidade como um cego que nada vê. Com os olhos bem abertos, observava
não mais somente os monumentos arquitetônicos mas também os
homens.
Um dia em que passeava pelas ruas
centrais da cidade, subitamente deparei com um indivíduo vestido em longo caftan
e tendo pendidos da cabeça longos caches
pretos.
Meu primeiro pensamento foi: isso é um
judeu?
Em Linz eles não tinham as
características externas da raça.
Observei o
homem, disfarçada mas cuidadosamente, e quanto mais eu contemplava aquela
estranha figura, examinando-a traço por traço, mais me perguntava a mim mesmo:
isso é também um alemão?
Como acontecia sempre
em tais ocasiões, tentei remover as minhas dúvidas recorrendo aos livros. Pela
primeira vez na minha vida, comprei, por poucos pfennigs, alguns panfletos
anti-semíticos. Infelizmente, todos partiam do ponto de vista de já ter o leitor
algum conhecimento da questão semítica. O tom da maior parte desses folhetos era
tal que, de novo, fiquei em dúvida. As suas afirmações eram apoiadas em
argumentos tão superficiais e anticientíficos que a ninguém
convenciam.
Durante semanas, talvez meses,
permaneci na situação primitiva. O assunto
parecia-me tão vasto, as acusações tão excessivas, que, torturado pelo receio de
fazer uma injustiça, de novo fiquei em um estado de incerteza e ansiedade.
Não me era lícito duvidar que, no caso, não se
tratava de uma questão religiosa, mas de raça, pois logo que comecei a estudar o
problema e a observar os judeus, Viena apareceu-me sob um aspecto diferente. Já
agora, para qualquer parte que me dirigisse, eu via judeus e quanto mais os
observava mais firmemente convencido ficava de que eles eram diferentes das
outras raças. Sobretudo no centro da cidade e na parte norte do canal do
Danúbio, notava-se um verdadeiro enxame de indivíduos que, por seu aspecto
exterior, em nada se pareciam com os alemães. Mesmo, porém, que me assaltassem
ainda algumas dúvidas, todas as hesitações se dissipavam em face da atitude de
uma parte dos judeus.
Surgiu entre eles um
grande movimento de vasta repercussão em Viena que muito concorreu para um juízo
seguro sobre o caráter racial dos judeus. esse movimento foi o
Sionismo.
Parecia, à primeira vista, que só uma
parte dos judeus aprovava essa atitude e que a grande maioria condenava aquele
princípio e o rejeitava decididamente. Após observação mais acurada,
verificava-se que essa aparência se traduzia em um misto de teorias, para não
dizer de mentiras, apresentadas por motivos tácitos, pois o chamado judeu
liberal rejeitava os pontos de vista dos sionistas, não porque esses fossem não
judeus mas porque eram judeus que pertenciam a um credo pouco prático e talvez
mesmo perigoso para o próprio judaísmo.
Essa
discórdia em nada alterava, porém, a solidariedade íntima entre os
adversários.
A luta aparente entre os sionistas
e os judeus liberais muito cedo me despertou nojo. Comecei a vê-la como
hipócrita, uma deslavada miséria, de começo a fim, e, sobretudo, indignada da
tão proclamada pureza moral desse povo.
De mais
a mais, essa pureza moral ou de qualquer outra natureza era uma questão
discutível. Que eles não eram amantes de banhos podia-se assegurar pela simples
aparência. Infelizmente não raro se chegava a essa conclusão até de olhos
fechados, Muitas vezes, posteriormente, senti náuseas ante o odor desses
indivíduos vestidos de caftan. A isso se acrescentem as roupas sujas e a
aparência acovardada e tem-se o retrato fiel da
raça.
Tudo isso não era de molde a atrair
simpatia. Quando, porém, ao lado dessa imundície física, se descobrissem as
nódoas morais, maior seria a repugnância.
Nada
se afirmou em mim tão depressa como a compreensão, cada vez mais completa, da
maneira de agir dos judeus em determinados
assuntos.
Poderia haver uma sujidade, uma
impudência de qualquer natureza na vida cultural da nação em que, pelo menos um
judeu, não estivesse envolvido?
Quem,
cautelosamente, abrisse o tumor haveria de encontrar, protegido contra as
surpresas da luz, algum judeuzinho. Isso é tão fatal como a existência de vermes
nos